PF: Delação de Ivanildo, ex-operador de Puccinelli, revelou ‘caminho da propina’

Coletiva de imprensa em Campo Grande- Foto: Reprodução Midiamax

À exemplo da Lava Jato, a Operação Lama Asfáltica também ganhou novos contornos com a delação premiada do pecuarista Ivanildo da Cunha Miranda, ex-operador do suposto esquema de propinas do ex-governador André Puccinelli (PMDB) entre os anos de 2006 a 2013.

De acordo com a PF, que deflagrou a 5ª fase da Lama Asfáltica, chamada de Papiros de Lama, nesta terça-feira (14) e prendeu Puccinelli e o filho, o advogado André Puccinelli Júnior, todo conteúdo da delação de Ivanildo será disponibilizada ainda hoje pela 3ª Vara da Justiça Federal em Campo Grande. Ivanildo procurou a PF em agosto passado, e aliado aos seus depoimentos, perícias, documentos e provas coletadas nas outras quatro fases da Lama Asfáltica, os agentes conseguiram comprovar desvios de R$ 85 milhões, somente na Papiros de Lama. Em toda a Operação, desde 2015, o dinheiro desviado de recursos públicos ultrapassa R$ 235 milhões.

“Tudo convergiu corroborado pela delação e pelos depoimentos”, explicou o delegado da PF, Cléo Mazzotti. Segundo ele, Ivanildo recebia dinheiro do grupo JBS, como já delatado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, e depositava em contas que Puccinelli determinava.

O delegado contou que o dinheiro de propina era trazido da JBS de várias formas e em grandes quantias, dentro de mochilas e caixas, por exemplo, e além do testemunho do delator, os agentes encontraram planilhas que corroboram as investigações. Miranda, que buscava os valores em São Paulo e Rio de Janeiro, recebia entre R$ 60 a R$ 80 mil entre 2006 a 2010, valor que depois chegou a R$ 200 mil, para fazer o papel de operador da propina.

“A investigação entende que o ex-governador (Puccinelli) nessa estrutura criminosa tinha papel central, até porque era beneficiário”, afirmou o delegado, durante a coletiva na sede da PF na Capital, na manhã desta terça-feira.

Lavagem de dinheiro

Ainda não 4ª fase da Lama Asfáltica, a Máquinas de Lama, a investigação constatou a simulação de um contrato de esgoto entre Águas Guariroba e a Proteco, de João Amorim, no município de Dourados, onde a empresa não mantém a concessão. A empreiteira teria comprado uma estação de saneamento por R$ 3,5 milhões e revendido, no dia seguinte, à Águas, por R$ 4,5 milhões, em um negócio que, de fato, não teria acontecido.

Já nesta fase, a força tarefa verificou a contratação de serviço de assessoria jurídica fictício da Águas, com pagamento de vultuosos valores para escritórios de advocacia ligados a André Puccinelli Junior.

“Quase R$ 5 milhões foram transferidos da Águas Guariroba para o grupo do ex-governador Andre Puccnelil de 2011 a 2017”, contou superintende regional da CGU, José Paulo Barbieri.

O delegado regional da Receita Federal, Henry Tamashiro Oliveira, disse que as investigações comprovaram ainda que houve aquisições de livros jurídicos, por parte da Águas, e serviços de consultoria advocatícia com ‘fortes indícios de que não foram realmente prestados’. Segundo ele, a Papiros de Lama deve gerar novas operações.

Mazzotti afirmou também que a empresa de Puccinelli Júnior, a Ícone, que promove cursos jurídicos, recebia dinheiro de propina da JBS e da Águas Guariroba, por meio da aquisição de grande quantidade de livros vendidos, sem utilização pelo comprador, e por meio dos direitos autorais pagos ao filho do ex-governador.

Dois nomes ligados a Puccinelli Júnior, os advogados João Paulo Calves e Jodascil Gonçalves Lopes, do Instituto Ícone, foram presos temporariamente, até cinco dias de prazo.

Puccinelli e o filho foram presos preventivamente, sem prazo para terminar, uma vez que escritório de advocacia ligado a Puccinelli Júnior ainda recebe grandes somas, cerca de R$ 1 milhão, da Águas Guariroba, o que para a PF, é prova de que o processo de lavagem de dinheiro está em andamento.

A Receita Federal já multou empresas e pessoas físicas, alvos da operação, em cerca de R$ 23 milhões. A Justiça também autorizou o sequestro de bens dos investigados em até R$ 160 milhões (desde início da Operação, em 2015, esse montante chega a mais de R$ 500 milhões).

Durante a coletiva, a força tarefa, PF, CGU e Receita, revelou que identificou, por exemplo, um depósito, em 2014, oriundo da JBS, de quase R$ 20 milhões. O total da propina ainda está sendo apurado, bem como o valor que Águas Guariroba repassou ao grupo, cujo montante ainda não pode ser detalhado.

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