Empresa que denunciou propina por incentivos fiscais hoje está entre as maiores beneficiadas em MS

A proximidade entre integrantes do governo Eduardo Riedel e a família Batista ocorre em um momento em que a JBS mantém negócios diretamente alcançados por incentivos fiscais concedidos em Mato Grosso do Sul. O assunto ganhou atenção após denúncias à Polícia Federal questionarem viagens de membros do primeiro escalão em aeronaves ligadas aos Batista, justamente a família que, anos atrás, revelou às autoridades suspeitas de corrupção envolvendo benefícios tributários destinados à própria companhia.

Naquela época, Joesley e Wesley Batista relataram aos investigadores que pagamentos teriam sido exigidos para garantir vantagens fiscais à JBS no Estado. A colaboração premiada, homologada pelo Supremo Tribunal Federal em 2017, forneceu informações que mais tarde sustentaram a Operação Vostok e colocou sob investigação integrantes da administração estadual.

A acusação apontava que o valor cobrado equivaleria a cerca de 30% do imposto que a JBS deixava de recolher com os incentivos concedidos pelo governo. Entre os principais investigados estava Reinaldo Azambuja, então governador de Mato Grosso do Sul e hoje candidato ao Senado na aliança política de Riedel.

Riedel fazia parte daquela administração. Entre 2015 e 2021, ocupou a Secretaria de Governo, posto responsável pela articulação política do Executivo e atualmente comandado por Rodrigo Perez. É justamente Perez quem aparece no episódio mais recente, após desembarcar em Campo Grande de um jato operado por empresa ligada à família Batista, viagem que motivou questionamentos apresentados por João Henrique Catan e Fábio Trad à Polícia Federal.

Incentivos continuam presentes

A relação comercial da JBS com políticas tributárias do Estado permaneceu depois da Vostok. A companhia possui unidades enquadradas em programas de incentivo e está entre as grandes empresas beneficiadas por esse tipo de política em Mato Grosso do Sul, embora o governo não divulgue individualmente quanto cada grupo recebe por causa das regras de sigilo fiscal.

O volume total das renúncias concedidas pelo Estado ajuda a mostrar o tamanho dessa política. A previsão para 2026 chega a R$ 11,95 bilhões considerando todas as empresas beneficiadas, mais que o dobro dos R$ 5,58 bilhões registrados em 2023. Dentro desse sistema, a JBS Aves de Caarapó participa, por exemplo, do Frango Vida, programa que concede benefícios sobre o ICMS aos frigoríficos enquadrados nas regras estaduais.

Esse histórico antecede em quase uma década os questionamentos atuais envolvendo o uso de aeronaves ligadas aos Batista por integrantes do governo. Catan e Trad pediram à Polícia Federal esclarecimentos sobre quem disponibilizou o avião utilizado por Perez, quem pagou pela viagem, qual foi a finalidade do deslocamento e se houve participação de servidores ou recursos públicos.

A investigação da Vostok, por sua vez, terminou sem condenação dos acusados. A ação contra Azambuja foi trancada pelo ministro Dias Toffoli, do STF, em outubro de 2025 e, posteriormente, os procedimentos contra os demais envolvidos também foram encerrados. As suspeitas relatadas pelos irmãos Batista, portanto, não chegaram a ser confirmadas em julgamento.

O episódio recente não demonstra, por si só, prática irregular por parte de integrantes do governo. As denúncias apresentadas à Polícia Federal questionam as circunstâncias dessas viagens e a proximidade com pessoas ligadas a um grupo empresarial que mantém negócios sujeitos a decisões tributárias do próprio Estado.

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