Redução do tempo de cheia estende temporada de incêndios até novembro no Pantanal, aponta estudo

MPMS e Sejusp firmam acordo para combater incêndios e desmatamentos no Pantanal

A diminuição do período de inundação alterou a dinâmica dos incêndios no Pantanal ao longo de quase quatro décadas e esticou o fim da temporada de queimadas de setembro para novembro no setor central do bioma, que abrange as sub-regiões do Paiaguás, Nhecolândia e Paraguai.

A conclusão faz parte de um estudo publicado recentemente na revista científica Global Change Biology, que avaliou o comportamento do fogo entre 1985 e 2024 e apontou a necessidade de revisar as estratégias de prevenção de acordo com as particularidades de cada área pantaneira.

O levantamento identificou ainda que, na porção Norte do Pantanal, o pico das ocorrências de fogo se deslocou de setembro em direção a outubro. Já na região Sul, os dados confirmaram o encolhimento no tempo de alagamento, embora não tenham demonstrado tendência expressiva de expansão na área atingida pelas chamas.

Cruzando imagens de satélite com variáveis hidrológicas e climáticas por meio de modelos estatísticos e testes de tendência, o trabalho constatou que os índices mensais de fogo subiram a partir de 2014, mesmo sem variação acentuada na série anual completa, enquanto a extensão média das cicatrizes deixadas pelos incêndios cresceu com maior intensidade após 2018.

Liderada pelo pesquisador Lucas Barros-Rosa, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, a investigação reuniu especialistas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Embrapa Pantanal, contando com a participação de nomes como Walfrido Moraes Tomas, da Embrapa, e Fábio de Oliveira Roque e Geraldo Alves Damasceno Júnior, ambos da UFMS.

Para o professor Geraldo Alves Damasceno Júnior, os resultados comprovam cientificamente o que já era notado em campo, mostrando que a retração da lâmina de água caminha lado a lado com o avanço territorial do fogo. Ele explicou que os campos inundáveis geram alto volume de biomassa e, quando a cheia deixa de alcançar essas faixas ou dura menos tempo, toda a vegetação acumulada resseca e se transforma em combustível disponível para queimar.

Sistemas hídricos distintos e reflexos da Amazônia

Na análise de Damasceno, compreender as diferenças regionais das queimadas exige separar o funcionamento das bacias que alimentam a planície, já que o comportamento do Rio Paraguai nem sempre acompanha a realidade dos rios Aquidauana, Miranda e Negro. Dessa forma, a queda de chuvas e a subida de nível em determinada calha não garantem alívio hidrométrico no restante do bioma. “Tem um sistema que está causando cheia e um sistema que não está”, afirma.

O cientista alertou que a vigilância contra o fogo precisa cruzar a medição do nível dos rios com o monitoramento de chuvas e a previsão de ondas de calor. Embora o Pantanal alterne ciclos plurianuais naturais de seca e cheia, a sobreposição dessas fases com eventos climáticos extremos acelera a perda de umidade e cria condições para grandes incêndios mesmo fora dos meses historicamente mais críticos.

Outro fator destacado pelo professor da UFMS é a dependência que as cabeceiras e os afluentes do Rio Paraguai têm da umidade vinda da Amazônia. O vapor que sai do Oceano Atlântico cruza a floresta equatorial, onde a transpiração das árvores recarrega a atmosfera e alimenta as nuvens que deságuam na bacia pantaneira. Por esse motivo, a derrubada da vegetação amazônica pode enfraquecer o corredor de umidade e diminuir as cheias no Pantanal, ainda que o pesquisador tenha ressalvado não possuir números exatos para isolar o peso desse desmatamento nas alterações medidas pelo artigo.

Calendários regionais e manejo integrado

Para enfrentar o novo regime de queimadas, o estudo propôs dividir o planejamento em duas frentes que unem gestão hídrica e controle de chamas fora e dentro da planície. A primeira etapa foca em reduzir a vulnerabilidade estrutural do ecossistema por meio da conservação da Amazônia, da recuperação florestal na Bacia do Alto Paraguai e da regulação do uso da água no planalto.

A segunda linha defende adaptar o combate à realidade de cada setor, implantando calendários regionais de manejo, brigadas comunitárias, restauração em larga escala e sistemas de alerta baseados em indicadores ambientais e inteligência artificial.

Ao avaliar o manejo integrado do fogo como um avanço que precisa ser calibrado conforme o ciclo de inundação de cada sub-região, Damasceno observou que o sucesso da medida depende de superar a antiga cultura de proibição absoluta das queimas controladas.

Segundo ele, muitos produtores e moradores rurais ainda evitam aderir à técnica preventiva por medo de perder o controle das chamas e sofrer sanções legais, o que exige treinamento técnico e regras claras sobre a responsabilidade de quem executa a ação. “Eu vejo que o pessoal tem a questão da segurança operacional e a segurança jurídica. Essas duas coisas precisam melhorar”, afirma.

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