Estudo aponta que pecuaristas têm 67% menos dependência institucional em incêndios no Pantanal

Vista aérea do Pantanal mostrando fumaça de incêndio e áreas contrastantes de pecuária e comunidade tradicional.

Pesquisa revela desigualdade no combate ao fogo no Pantanal

Um estudo publicado em julho no Journal of Pyrogeography indica que pecuaristas do Pantanal recorrem a instituições formais com 67% menos frequência do que moradores de comunidades tradicionais durante incêndios. A pesquisa, que ouviu 115 pessoas em 16 municípios, aponta que o acesso desigual a máquinas, trabalhadores e recursos financeiros é determinante para a capacidade de resposta ao fogo na região.

O trabalho, coordenado por André Valle Nunes, diretor de Programas e Projetos da Ecoa, reuniu 18 pesquisadores de instituições como UFMS, Embrapa Pantanal, Ibama, Cemaden, USP, UFRJ, UFMG, ICAS, University College London e Universidade do Porto. Foram entrevistados 67 pecuaristas e 48 moradores de comunidades tradicionais, em sua maioria ribeirinhas ligadas à pesca, entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022.

Os dados levantados incluíram características das propriedades, quantidade e tipo de máquinas, número de trabalhadores, distância da cidade mais próxima e frequência de incêndios. Os participantes também foram questionados sobre quem procurariam em caso de incêndio nas proximidades, como vizinhos ou instituições formais.

Os pesquisadores partiram da hipótese de que os pecuaristas, por terem maior acesso a recursos, segurança na posse da terra e vantagens socioeconômicas, teriam mais capacidade própria de resposta e menos dependência institucional. Para as comunidades tradicionais, esperava-se maior necessidade de cooperação e apoio institucional. Os resultados confirmaram essa diferença, segundo os autores.

Máquinas e mão de obra

A desigualdade se reflete nos recursos disponíveis. Pecuaristas relataram com mais frequência acesso a tratores e caminhões-pipa. Nas comunidades tradicionais, eram mais comuns equipamentos compartilhados ou improvisados, como pequenas bombas e veículos comunitários. Em média, cada entrevistado contava com seis trabalhadores e quatro máquinas, com grande variação entre os grupos.

Quando analisados isoladamente, uma maior disponibilidade de máquinas esteve associada a uma redução de 37% na probabilidade de procurar instituições formais. Entre os que tinham mais de três trabalhadores, essa probabilidade foi 73% menor em comparação aos que dispunham de menos mão de obra. No entanto, no modelo estatístico final, essas variáveis deixaram de ser estatisticamente significativas, enquanto a diferença entre os grupos sociais se manteve.

A distância até a cidade mais próxima e a frequência de incêndios anteriores não explicaram a dependência institucional, contrariando as expectativas iniciais. Os resultados apontam para uma diferença estrutural, ligada às condições socioeconômicas e ao acesso desigual aos meios de resposta rápida.

O que está em jogo

A desigualdade também se manifesta no que é ameaçado pelo fogo. Em grandes propriedades, um incêndio pode atingir parte da área sem comprometer bens essenciais, podendo até ser visto como vantajoso para limpeza ou renovação de pastagens. Já nas comunidades tradicionais, as chamas podem destruir fontes de água, moradias, infraestrutura e recursos de subsistência, aumentando a necessidade de ajuda institucional.

Embora as comunidades tradicionais possuam conhecimentos e práticas próprias de manejo do território, incêndios extremos podem ultrapassar sua capacidade local de resposta. Os autores destacam que treinamentos e brigadas comunitárias são iniciativas que ampliam a preparação e fortalecem as relações de cooperação com instituições públicas.

Os pesquisadores lembram que a menor dependência institucional dos pecuaristas não os torna imunes a grandes incêndios. Eventos como os de 2019 e 2020, considerados entre os mais severos das últimas décadas, podem comprometer até quem dispõe de mais recursos. Naquela ocasião, brigadas privadas foram treinadas pelo Prevfogo/Ibama e pelo Corpo de Bombeiros, com pecuaristas fornecendo equipamentos e pessoal, enquanto ONGs contribuíram com barcos, combustível e alimentos.

O estudo também alerta para a redução do número de trabalhadores no campo e a dificuldade de permanência dos jovens, o que pode diminuir a capacidade local de manejo do fogo. Por isso, os autores defendem políticas que integrem manejo do fogo, desenvolvimento sustentável e fixação das populações rurais.

A principal conclusão é que incêndios extremos exigem articulação entre poder público, comunidades tradicionais, povos indígenas, proprietários rurais e organizações. Essa lógica está presente na Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei 14.944/2024, que estabelece responsabilidades compartilhadas e ações de prevenção, monitoramento e integração de estruturas. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que o estudo analisou apenas pecuaristas e comunidades tradicionais, principalmente ribeirinhas, e que possuir máquinas e trabalhadores não implica, necessariamente, em ter treinamento ou capacidade técnica para enfrentar grandes incêndios.

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