Territórios indígenas de MS enfrentam escassez hídrica antes do El Niño 2026/2027
Comunidades relatam córregos secos e governo prepara ações em Dourados.
Lideranças indígenas em Mato Grosso do Sul relatam intensificação da escassez de água nos territórios antes da chegada do El Niño previsto para o ciclo 2026/2027. Córregos que tradicionalmente abastecem as aldeias apresentam vários trechos secos, dificultando não apenas o acesso à água potável, mas também a subsistência pela pesca e cultivo de alimentos. O tema esteve no centro das discussões do Diálogo Regional El Niño, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.
Durante o evento, representantes de povos indígenas enfatizaram as dificuldades com a captação de água subterrânea, mesmo com perfuração de poços em profundidade. Conforme relatos apresentados no encontro, há territórios onde a estiagem já compromete a produção agrícola de subsistência e a oferta de alimentos tradicionais, pressionando as famílias na busca por alternativas e ampliando a dependência de sistemas de irrigação.
Impactos ambientais e cobranças por políticas públicas
Leosmar Terena, coordenador-geral de elaboração dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Mato Grosso do Sul, destacou que a situação se agrava com o aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a baixa umidade nos últimos meses. Ele explicou o cenário detalhando relatos sobre córregos como o Agachi, que cruza seu território e integra a bacia do Rio Paraguai. De acordo com a liderança, as nascentes que garantem o abastecimento ficam em áreas de fazenda e são diretamente impactadas por atividades agropecuárias no entorno. A redução da oferta hídrica tem reflexo direto na alimentação. “Nos territórios indígenas a gente tem vivenciado muito essa questão da escassez hídrica, que não é apenas superficial, mas também é a água subterrânea.”
Como resposta, Leosmar propôs a inclusão de faixas de segurança etnoambiental para proteger as nascentes, recuperação ambiental em larga escala e a criação de um espaço permanente de monitoramento das mudanças climáticas sob liderança indígena. Para ele, é fundamental garantir uma política efetiva de acesso à água como parte dos mecanismos de preparação para eventos climáticos extremos.
O encontro em Campo Grande reuniu lideranças indígenas, ministros do governo federal e estadual, organizações civis e movimentos sociais. Grupos de trabalho trataram de propostas específicas para agilizar respostas aos efeitos das mudanças climáticas e aproximar as decisões governamentais das demandas apresentadas pelas comunidades.
Eloy Terena, ministro dos Povos Indígenas, abordou a situação das famílias em Dourados. Segundo ele, a falta de água potável figura entre os principais desafios, porém, recursos já foram repassados ao governo estadual para execução de obras destinadas ao abastecimento das aldeias da região. A autorização da Funai para início das obras já foi liberada, segundo o ministro. “Nós acreditamos que ainda este ano vamos dar início a essas obras para que a comunidade não sofra mais com a escassez de água potável.” Eloy mencionou ainda surto de chikungunya registrado três meses antes na comunidade indígena, afirmando que a situação está atualmente controlada, apesar das demandas estruturais de saúde permanecerem.
Mariuza Aparecida Camilo Guimarães, ligada ao Movimento de Evangélicos e Evangélicas Progressistas do estado e ao Fórum de Participação Social, defendeu a escuta de indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais na formulação de políticas relacionadas à água e território. Entre as propostas apresentadas durante o fórum, destacou-se a criação de uma Universidade do Pantanal para ampliar pesquisas na região e reforçar ações de preservação ambiental, além da solicitação de avaliações sobre os impactos da mineração no Rio Paraguai e críticas ao desmatamento autorizado para expansão agropecuária no oeste do estado.
Os participantes do Diálogo Regional El Niño foram distribuídos em grupos com representantes de órgãos municipais, estaduais, federais e organizações do terceiro setor, com o objetivo de sistematizar demandas locais e debater ações concretas para ampliar a preparação e a resposta das comunidades indígenas frente ao agravamento dos fenômenos climáticos previstos.


