Jovens eleitores quilombolas ampliam participação e registram salto no eleitorado

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O número de eleitores que se identificam como quilombolas cresceu de forma expressiva no país, ampliando a participação política de comunidades tradicionais nas eleições de 2026. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, o total passou de 95.409 inscritos no pleito municipal de 2024 para 188.371 em 2026, um aumento que reflete maior visibilidade e mobilização nesses territórios.

O avanço ocorre em diferentes regiões. Em Goiás o eleitorado quilombola saltou de 3.625 para 5.394 eleitores, enquanto no Nordeste o número subiu de 51.633 para 95.901, concentrando mais da metade do eleitorado quilombola do país, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Votos e trajetórias locais

Na comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto, o agricultor Joaquim Moreira, 87 anos, se prepara para ir às urnas no dia 4 de outubro acompanhado da neta Thauany Silva, de 16 anos, que terá a primeira experiência de voto. Ambos mantêm os títulos bem guardados.

“Sempre votei e vou votar de novo”

Thauany, que obteve o título provisório assim que completou 16 anos, acompanhou a mãe ao cartório no centro da cidade para garantir o registro eleitoral. A mãe, Mayara Silva, 36 anos, orienta os filhos sobre a importância de acompanhar decisões públicas que afetam a comunidade.

“Não tem como fechar os olhos para o fato que tudo é política”

“Quando a gente vota, estamos cuidando do futuro de todos nós, né?”

Na Bahia, a universitária de direito Franciele Silva, 27 anos, nascida na comunidade de Rio dos Macacos, em Simões Filho, diz que carrega o título desde os 18 anos e utiliza a formação acadêmica para levar informações e caminhos de defesa territorial à comunidade.

“Eu tinha muita curiosidade sobre como era votar. Até o ar que a gente respira tem a ver com política. Minha mãe sempre me ensinou a lutar pelos meus direitos e da minha comunidade”

“Votar é fundamental”

Motivações e obstáculos à participação

Pesquisadores e representantes das comunidades associam o crescimento do eleitorado quilombola à maior visibilidade das pautas e ao letramento político promovido em articulações locais. A professora Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, afirma que a expansão do engajamento tem relação direta com a presença das demandas quilombolas em espaços públicos e com novas parcerias.

“Nós temos levado as nossas pautas a diferentes espaços e encontramos parcerias”

Segundo Bia Nunes, a conscientização inclui o reconhecimento do papel das comunidades na preservação ambiental e na manutenção da biodiversidade, o que fortalece a exigência por políticas públicas voltadas à proteção territorial.

“Entender, por exemplo, a importância que os territórios têm para a biodiversidade. É o trabalho que os quilombolas sempre fizeram e fazem”

Ela acrescenta que a compreensão dessa atuação coletiva leva as pessoas a escolher representantes comprometidos com a titulação e a proteção das comunidades.

“As pessoas começam a dimensionar esse trabalho e a entender a importância do voto e de escolher os representantes”

Ao mesmo tempo, a pesquisadora aponta desafios relacionados a pressões e ameaças que atingem lideranças e candidaturas. A própria trajetória de Bia inclui medidas de proteção decorrentes de ameaças recebidas no contexto de atuação política.

“Eu mesmo sou uma pessoa que estou no programa de proteção porque, no ano de 2020, eu sofri uma ameaça contra a minha vida (quando era candidata)”

O educador de alfabetização financeira Rafael Costa, 32 anos, da comunidade Mesquita em Cidade Ocidental, destaca que o crescimento do interesse por participação política decorre do aumento de informação e de ações de formação à população.

“Quanto mais as pessoas se informam, mais pesquisam, estudam e passam a ter mais noção da necessidade de políticas públicas, por exemplo”

Rafael observa ainda que a consciência sobre modos de vida e produção impulsiona a construção de repertório político que protege as comunidades de golpes e de desinformação.

“A partir do momento que se conscientizam sobre seu modo de vida e de produção, começam também a desenvolver maior consciência política”

“A comunidade está cada vez mais se fortalecendo politicamente”

As mudanças registradas nas bases eleitorais coincidem com mobilizações locais para garantir registros, aumentar a participação jovem e sustentar demandas por titulação territorial, proteção e políticas públicas específicas. A ampliação do eleitorado quilombola colocará novos indicadores de representatividade nas urnas e exigirá acompanhamento das propostas apresentadas por candidatos nos territórios.

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