Analistas alertam que ação cibernética de EUA e bigtechs pode influenciar eleições
Consultores em relações internacionais e segurança digital consideram iminente o risco de ações cibernéticas promovidas pelos Estados Unidos com apoio ou uso de grandes empresas de tecnologia para tentar influenciar o resultado das eleições gerais em outubro.
O argumento central concentra-se em um memorando assinado recentemente pela presidência norte-americana que autoriza a cooperação com empresas privadas em iniciativas descritas como “vigilância cibernética” e “efeitos cibernéticos” e que, conforme a avaliação de analistas, amplia capacidades de intervenção no ambiente digital.
Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, destacou o alcance do documento e advertiu para consequências profundas. “Os efeitos desse memorando são assustadores. A gente está falando de espionagem e ação de hackeamento de altíssimo nível e muito profundo. Eles podem entrar literalmente no perfil de qualquer pessoa para fazer relatórios e dossiês para favorecer ou prejudicar determinado candidato” Ele acrescentou que os termos do memorando permitem acesso a sistemas sem a autorização do proprietário e ações que excedem o acesso inicialmente autorizado.
Escopo das medidas previstas
O texto do memorando prevê operações que envolvem acesso a sistemas de informação sem autorização do proprietário ou operador e amplia possibilidades de atuação em infraestrutura de telecomunicações, internet, sistemas de controle industrial e outras plataformas essenciais.
O documento também autoriza uma chamada Operação de Efeitos Cibernéticos capaz de provocar “manipulação, interrupção, negação, degradação ou destruição de sistemas de informação, redes, infraestrutura física ou virtual” e, segundo os especialistas, isso abre caminho para intervenções que podem ser difíceis de rastrear.
Ao tratar da natureza dessa possível interferência, Aragon enfatizou o caráter discreto das ações e o potencial de ocultamento da autoria. “O impulsionamento de perfis nas redes sociais é só uma das ações que já estão ocorrendo, mas pode ir muito além. O risco é sistêmico e estrutural” Ele ressaltou que operações cibernéticas permitem atuar sem deixar pistas evidentes sobre quem executou as ações.
O pesquisador também defendeu medidas de soberania digital no Brasil e citou a dependência atual do Estado em fornecedores norte-americanos. “todos os sistemas sensíveis do Estado brasileiro estão na mão de sistemas de empresas dos EUA” Aragon apontou a necessidade de infraestrutura própria para reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Contexto diplomático e exemplos de influência
As tensões recentes entre Brasil e Estados Unidos, incluindo a aplicação de tarifa de 25 por cento e o cancelamento de vistos de autoridades brasileiras, compõem o pano de fundo para a preocupação dos analistas com novas iniciativas de pressão, agora no ambiente digital.
Em julho o governo brasileiro barrou visto de dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA por suspeitas de que os assistentes do secretário Marco Rubio pretendiam questionar o sistema eleitoral do Brasil, episódio que, na avaliação dos especialistas, reforça a percepção de intenções externas de interferência.
O professor Euclides Vasconcelos, especialista em geopolítica, afirmou que “sem dúvida nenhuma” é possível esperar novas ações dos EUA destinadas a descredibilizar o processo eleitoral. Ele chamou atenção para o papel das plataformas digitais na mobilização e na moldagem de percepções eleitorais e citou precedentes recentes em outras regiões.
“As big techs são muito mais que plataformas ou espaços de discussão. Elas são empresas ligadas a Estados, ligadas a governos, que têm esforços e que conseguem mobilizar, canalizar e influenciar de maneira muito direta certos recortes demográficos da população” Vasconcelos lembrou ainda do episódio da imigração em massa a Ceuta, no qual notícias falsas nas redes influenciaram o movimento de milhares de pessoas.
O vínculo entre setores empresariais de tecnologia e estruturas estatais americanas foi apontado pelos analistas como indicativo de maior integração entre interesses privados e decisões de governo. Em junho de 2025 o Exército dos Estados Unidos divulgou que executivos de empresas como Meta, OpenAI e Palantir foram nomeados tenentes-coronéis do Destacamento 201 que abriga líderes da tecnologia, informação citada pelos especialistas como sinal de alinhamento estratégico.
Por fim, Vasconcelos relacionou as ações à nova doutrina de segurança dos EUA, divulgada no final de 2025, que prevê a “proeminência” norte-americana sobre a América Latina e que coloca o Brasil como um objetivo central dessa política. “E, para isso, o Brasil é uma peça-chave. O Brasil sempre foi visto pelos EUA como o único país que, se quisesse, poderia desafiar a dominação estadunidense nisso que eles chamam de ‘seu hemisfério'” O conjunto de fatores leva os analistas a recomendar atenção e medidas de proteção da infraestrutura digital nacional diante do pleito de outubro.


