Rota Cine MS Povos Tradicionais leva cinema e memória às comunidades quilombolas
A primeira edição do Rota Cine MS Povos Tradicionais realizou uma sessão de cinema dentro da própria Comunidade Quilombola Tia Eva, exibindo o curta sul-mato-grossense As Marias e reunindo moradores em torno de memórias e afetos.
A ação decorreu no Centro Comunitário da Tia Eva logo após o terço em celebração a São Benedito e contou com pipoca e refrigerante para o público presente, além de uma roda de conversa que aprofundou temas trazidos pelo filme.
A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Secretaria de Estado da Cidadania e a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul com a proposta de aproximar produções audiovisuais de territórios tradicionais e ampliar o acesso à cultura para comunidades rurais e quilombolas.
O subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial Deividson Silva explicou por que o projeto optou por levar o equipamento até as comunidades. “A partir de uma provocação feita dentro da própria comunidade, pensamos: por que não fazer o equipamento chegar até as pessoas? Muitas vezes a locomoção é difícil, especialmente para quem vive em áreas mais afastadas. Quando falamos de política pública, é importante que ela vá até a comunidade, e não que a comunidade precise procurar por ela”
Sessão, público e lembranças
A sessão tocou moradores de diferentes idades e foi especialmente marcante para pessoas idosas que compartilharam lembranças relacionadas ao cinema e à vida em comunidade. Aos 71 anos, o aposentado Antônio Borges relatou sua experiência ao acompanhar o filme e o ambiente criado para a exibição. “Tem gente aqui que pode ter certeza que nunca foi ao cinema. E hoje assistiu um filme, teve a oportunidade de apreciar o cinema, comer uma pipoca. Isso é muito importante. Muitas crianças daqui quase não saem da comunidade. Então trazer o filme até aqui mostra outro lado da cultura, que não pode acabar”
A moradora Irene Borges, presente na comunidade desde 2002, descreveu a emoção de ver uma tela grande pela primeira vez e a facilidade de acessibilidade proporcionada pela sessão realizada perto de casa. “Se fosse para a gente ir lá assistir, talvez a gente não fosse. Mas aqui, perto da casa da gente, ficou fácil. Nunca fui ao cinema, nunca tinha visto uma tela grande assim, fiquei emocionada”
Diálogo sobre envelhecimento e ancestralidade
Após a exibição houve uma roda de conversa conduzida pela subsecretária da Pessoa Idosa Larissa Paraguassu que relacionou a atividade ao projeto Cine Maturidade e ao diálogo intergeracional estimulado pelo audiovisual. “Após cada sessão, vamos compartilhando impressões sobre família, envelhecimento, respeito e ancestralidade, conduzindo o diálogo com escuta e participação de todos”
A historiadora e liderança local Vânia Lúcia Baptista Duarte, descendente de Tia Eva, destacou como o filme ecoou experiências e memórias quilombolas ao narrar a convivência entre irmãs que envelhecem juntas. “Algumas coisas permanecem. Quando toca aquela música sertaneja, muitos de nós lembramos das nossas histórias. O filme fala dessa irmandade, dessas mulheres que envelheceram juntas, com alegrias e dores. Mesmo falando das dificuldades, é visível a alegria delas em poder contar a própria história e serem ouvidas”
O Rota Cine MS Povos Tradicionais seguirá levando sessões a outras comunidades tradicionais de Mato Grosso do Sul conforme agenda divulgada pela Comunicação da Cidadania. A próxima exibição será na Comunidade Quilombola São João Batista em 21 de maio de 2026 às 19h30 e em seguida na Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara Buriti no dia 22 de maio de 2026 às 18h
As atividades do projeto procuram responder à dificuldade de deslocamento enfrentada por quem vive em localidades mais afastadas e reafirmam a importância de políticas públicas que ocorram no território para garantir acesso e participação cultural.

