Artesanato indígena é valorizado em Mato Grosso do Sul e em feiras nacionais
A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul mantém práticas sistemáticas para promover o artesanato indígena, oferecendo espaços de venda na Casa do Artesão, levando produtos a feiras nacionais e deslocando equipes às aldeias para emitir a Carteira Nacional do Artesão.
No estado há nove etnias catalogadas que produzem peças em cerâmica, fibra e sementes, entre outros materiais, e a comercialização tem foco em grupos específicos que também atuam em eventos e associações.
Katienka Klain, diretora de Artesanato, Moda e Design da Fundação de Cultura, aponta as etnias mais presentes na comercialização e na Casa do Artesão. “Hoje está tendo uma maior venda da material do Guató, do Ofaié, mas ainda de forma muito devagar, mas as maiores vendas são a terena, que é referência cultural, que é patrimônio cultural, e elas vendem muito por associações, também, às vezes, não indígenas, porque tem essa dificuldade de acesso financeiro de participar em alguns eventos”
Sobre o comportamento das vendas nas feiras nacionais, Katienka esclarece o papel das associações e a predominância de um tipo de produto. “As feiras nacionais são vendidas, a grande maioria, através de associações de artesanato, nem sempre associações indígenas, também a participação de representação de pessoas não indígenas, e aí essa venda é realizada em grande número expressivo, mas a grande maioria está na cerâmica terena, ainda a gente tem que ter um trabalho maior no estado para aumentar a venda e qualificar mais os outros artesanatos”
A diretoria da Fundação também relaciona ações voltadas à inclusão econômica das comunidades indígenas em eventos e editais. “O artesanato indígena é o primordial, é o que começou, onde tudo começou. Então, assim, está e grande parte quando a gente realiza a Carteira Nacional do Artesanato nas aldeias indígenas. Eles deixam claro que eles vivem do artesanato, então é fundamental o apoio da Fundação de Cultura através de comercialização nos Festivais de Inverno de Bonito, América do Sul, que são espaços próprios para eles. As vagas também nos editais, que também são vagas específicas para a população indígena, para que eles possam escoar essas peças e ter representatividade e também começar a entender o que é o mercado do artesanato”
Casa do Artesão e presença histórica
A presença do artesanato indígena na Casa do Artesão já supera três décadas, com as participações das etnias Kadiwéu, Terena e Kinikinau, o que reforça a identidade cultural do espaço e a manutenção da memória regional.
Eliane Torres, coordenadora da Casa do Artesão, sintetiza o significado desse acervo humano e cultural. “a nossa referência cultural, é a nossa identidade, é patrimônio histórico, tudo isso envolve, por isso que temos aqui nossos artesãos indígenas presentes na nossa casa”
Trajetórias de artesãs
A artesã Cleonice Roberto Veiga, conhecida como Cléo Kinikinau, expõe na Casa do Artesão há um ano peças em cerâmica e argila, além de colares, brincos e pulseiras. Para ela, a visibilidade dada pela Casa do Artesão tem impacto econômico direto para as famílias. “Para a gente é importante que vocês ajudem a gente a divulgar o nosso trabalho, a nossa cultura e também ajuda no custo financeiro, que isso é uma fonte de renda nossa, que muitas vezes a gente não tem um emprego fixo, não trabalha, e acaba ajudando isso para dentro de casa nossa. É muito importante, depois que a gente conheceu aí a Casa do Artesão, para a gente está sendo ótimo, está ajudando a gente, que de mês em mês, a Casa do Artesão, ela tem mandado para a gente o que tem vendido e valoriza mais o nosso trabalho. E é isso, é muito bom, muito importante mesmo para nós. Nosso artesanato Kinikinau é raro ver em lugares, mas está ajudando muito mesmo a gente”
Creusa Virgílio, da etnia Kadiwéu, atua na Casa do Artesão há 14 anos e relata continuidade familiar na produção de cerâmica. “Eu seguia minha mãe e minha irmã para vender cerâmica. E hoje eu continuo. Elas partiram e eu continuo na Casa do Artesão. Eu entrego peças para casa do artesão a cada 30 dias. A importância é, para mim, a mulher Kadwéu sobre a valorização do nosso estado, também é o momento de a gente divulgar e fortalecer a arte Kadwéu. O artesanato, para mim, é a renda familiar e a valorização da cultura, para que a cultura Kadwéu sempre viva e seja fortalecida em nosso estado”
A artesã Rosenir Batista, da etnia Terena, ministra oficinas em escolas e foi homenageada na Semana do Artesão no ano anterior. Nascida em 8 de março de 1967, Rosenir trabalha com a Cerâmica Tradicional Terena desde a infância, há mais de 49 anos, e descreve a transmissão do saber como um compromisso familiar e comunitário. “O saber ancestral da arte em cerâmica Terena aprendi com minha avó, e das primeiras peças produzidas (Bichinhos do Pantanal, vasos) meu trabalho evoluiu para diversos tipos de peças utilitárias e decorativas, que se transformaram na minha principal fonte de renda. Este conhecimento ancestral que recebi de minha avó já repassei para minhas filhas e netas, e eles já trabalham comigo, e temos o compromisso de manter está técnica viva de geração em geração”
Rosenir reside na aldeia Cachoeirinha, município de Miranda, e afirma que o ofício atravessa gerações e é inseparável da identidade local. “Eu trabalhava com a minha mãe, minha mãe trabalhava já com cerâmica, eu ajudava. Na prática, hoje, eu tenho 25 anos na área de artesanato. A cerâmica para mim é um trabalho que minha mãe me deixou. Então eu não posso deixar morrer a cultura, o trabalho que ela deixou para mim, eu tenho que dar continuidade. É a cultura da aldeia onde eu moro, eu não posso deixar ser esquecido, toda a minha família hoje trabalha na cerâmica”
As iniciativas públicas descritas pela Fundação de Cultura visam, na prática, ampliar canais de comercialização, garantir representatividade em eventos e fortalecer economias locais baseadas no artesanato indígena.

