Lula anuncia que vai anular leilão da Petrobras por ágio no gás
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a intenção de anular o leilão de gás liquefeito de petróleo GLP realizado pela Petrobras, argumentando que o certame resultou em venda do produto a distribuidoras com preços até 100% superiores aos indicados na tabela da estatal.
Lula classificou o leilão como ação que contrariou a orientação interna da empresa e responsabilizou os responsáveis pela operação
“Foi feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem, que fizeram. As pessoas sabiam da orientação do governo, da orientação da Petrobras de não vamos aumentar GLP. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras”
Em seguida, o presidente reforçou a decisão de revisar o resultado do certame e justificou a anulação como medida de proteção às famílias de baixa renda
“Nós vamos rever esse leilão, nós vamos anular esse leilão, porque o povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra”
O governo ressalta que, embora o Brasil produza GLP, os preços domésticos têm sido arrastados pelas cotações internacionais, especialmente após a escalada de tensão no Oriente Médio, e que uma prática de leilões com ágio elevado pode ajustar o preço interno ao mercado externo sem alteração formal na tabela de preços da Petrobras.
Em sua página oficial, a Petrobras mantém publicados os valores de venda à vista do GLP às distribuidoras, sem tributos, por local e modalidade, e os registros mostram que os preços indicados na tabela estão estáveis desde novembro de 2024.
Lula atribuiu parte da alta sentida pelo consumidor ao custo da distribuição e questionou a diferença entre o preço de venda da estatal e o valor final cobrado nas residências
“Quando a Petrobras vende um botijão de gás a R$ 37, ele não pode chegar a R$ 160 na casa do povo. Alguém está roubando. [Dizem:] ‘Ah, mas a pessoa está gastando dinheiro [tendo custo] para entregar’. Tudo bem, mas é muita diferença entre R$ 37 para R$ 140, para R$ 150. E agora fizemos um leilão que teve ágio de 100%”
Medidas e contexto sobre combustíveis
Além do GLP, o presidente voltou a relacionar o aumento de preços ao impacto internacional sobre o petróleo, com destaque para o óleo diesel, e anunciou ações do governo para evitar maior repasse aos consumidores.
Lula informou que, além da redução de tributos já adotada, o Executivo prepara a publicação de medida provisória que cria um subsídio ao diesel importado de R$ 1,20 por litro, com o objetivo de conter a escalada de preços.
“Pode ficar certo, o povo não vai pagar. Nós não vamos aumentar o óleo diesel, [mas] tem gente [postos] aumentando sem nenhuma necessidade. Qual é a lógica de aumentar o preço do álcool? Qual é a lógica de aumentar o preço da gasolina se nós ainda não temos necessidade disso? É pura bandidagem de algumas pessoas”
O presidente também criticou a venda da BR Distribuidora em 2019, argumento usado para explicar a perda de instrumentos que poderiam moderar preços na ponta
“Privatizaram a BR [Distribuidora] e nós só podemos recomprá-la a partir de 2029. Ou seja, nós não temos hoje distribuidora. Até uma empresa de gás que eu comprei em 2004, eles venderam. A empresa de gás, que a gente faz a distribuição, era uma empresa para a gente fazer a regulação do preço”
No mesmo bloco de observações sobre estrutura produtiva, Lula citou a intenção de estudar a recompra da Refinaria de Mataripe, privatizada em 2021, como forma de aumentar a oferta interna de derivados e reduzir a dependência de importações.
“Não é justo o que fizeram, a refinaria produz [hoje] menos da metade daquilo que deveria produzir. E nós precisamos da refinaria produzindo muito mais porque nós [o Brasil] produzimos 70% do nosso óleo diesel e a gente compra 30% do óleo diesel. Esse importado, ele não tem jeito, ele vem com o preço de mercado internacional e você é obrigado a fazer o reajuste”
A reportagem consultou a Petrobras sobre as condições e a condução do leilão; a empresa foi contactada e a resposta ainda não havia sido recebida no momento da publicação.

