Pesquisadores e criadores alertam para extinção iminente de jumentos no Brasil

Jumento nordestino transportando sisal na Bahia, representando seu papel histórico na agricultura.

Rebanho nacional de asininos sofre queda de 94% em menos de três décadas, com ameaça de desaparecimento da raça nordestina impulsionada por mercado de colágeno

O Brasil enfrenta uma drástica redução na população de asininos, que inclui jumentos e jumentas, com uma queda de 94% no rebanho nacional entre 1997 e 2025. O número de animais, que era de 1,3 milhão, atualmente se estima em apenas 78 mil, conforme dados baseados em estimativas de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura e Pecuária (SIF-Mapa) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A diminuição coloca o jumento nordestino, uma das três raças brasileiras, sob o risco de extinção até 2030, impulsionado principalmente pelo abate para a produção de ejiao, um composto de colágeno destinado à medicina tradicional chinesa. Apesar dos esforços de preservação, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em novembro de 2025, reconheceu a legalidade do abate desses animais no país.

O ejiao, feito com o colágeno extraído da pele de jumentos, é altamente valorizado na China e pode ser comercializado por até US$ 920 o quilograma online. A organização não governamental britânica The Donkey Sanctuary estima que a demanda por esse composto exija o abate de 6 milhões de jumentos anualmente. Essa procura já resultou na quase dizimação das populações de jumentos em países como Quênia e Togo. Como resposta, a União Africana implementou em fevereiro de 2024 uma moratória de 15 anos para o abate desses animais em seus 55 países-membros.

No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) registrou o abate de 248 mil jumentos entre 2018 e 2023, uma média de 113 animais por dia. A bióloga Patrícia Tatemoto, representante da Donkey Sanctuary na América Latina, observa que a criação de jumentos para a produção de ejiao não é economicamente viável devido ao longo período de gestação (12 meses) e ao tempo necessário para o animal atingir o peso de abate (cerca de três anos), elevando o custo de produção para aproximadamente R$ 2 mil, valor muito superior aos R$ 180 de mercado para um jumento nordestino. Ela explica que a impossibilidade da China em criar jumentos na velocidade exigida pela demanda deslocou a busca, primeiro para nações africanas e, agora, para o Brasil.

A exploração desses animais também levanta preocupações de saúde pública. A ausência de controle sanitário adequado em abates e processamentos pode favorecer a transmissão de zoonoses. Um estudo conduzido pelo médico-veterinário Pierre Barnabé Escodro e sua equipe da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), publicado em março de 2025 na revista Animals, analisou 104 jumentos destinados ao abate, revelando problemas graves como má nutrição, inflamação sistêmica e sinais de maus-tratos.

Em 2019, uma ação conjunta da Donkey Sanctuary, do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) resgatou cerca de mil jumentos abandonados em uma fazenda na Bahia. A médica-veterinária da UFBA, Thereza Bittencourt, acolheu 166 desses animais, mas muitos não sobreviveram devido a doenças preexistentes.

Com informações Revista Fapesp

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