União processa Discord e pede R$ 500 milhões após morte de adolescente em Mato Grosso do Sul
Governo aciona plataforma na Justiça após falha na proteção de menores.
Uma disputa judicial de meio bilhão de reais contra o Discord foi oficializada pelo governo federal nesta quarta-feira. A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com ação civil pública contra a plataforma de comunicação digital, cobrando R$ 500 milhões em danos morais coletivos. O processo surge após o fracasso das negociações para que a empresa adotasse medidas mais rígidas de proteção a crianças e adolescentes, conforme determina a legislação brasileira.
O caso que motivou a ação é a morte de Lívia, de 13 anos, em Naviraí (MS), cidade a 359 quilômetros de Campo Grande. A adolescente faleceu em julho durante uma transmissão ao vivo no Discord. De acordo com nota técnica do Ministério da Justiça e Segurança Pública, duas adolescentes foram induzidas e ameaçadas por outros participantes a praticar atos de violência extrema contra si mesmas, incluindo o suicídio. Uma delas, Lívia, não resistiu. A mesma investigação aponta que outra jovem, de 17 anos, foi instigada à automutilação e que há indícios de que uma criança de 7 anos também vinha sendo alvo de incitação pelo grupo.
O ministro Jorge Messias, da AGU, anunciou a ação e afirmou que a iniciativa partiu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A plataforma é acusada de oferecer proteção insuficiente a usuários vulneráveis. Entre as falhas apontadas estão a ausência de medidas preventivas desde a concepção do serviço, a verificação de idade baseada apenas em autodeclaração, a falta de vinculação das contas de menores aos responsáveis, problemas nos controles parentais, exposição a conteúdo ilegal e omissão na comunicação às autoridades.
Na petição, a União destaca que a jovem foi induzida e ameaçada durante uma transmissão em um servidor do Discord, e que a plataforma não teria identificado a ocorrência, interrompido a transmissão ou comunicado as autoridades de forma espontânea. Também não há indicação de que mecanismos automáticos de alerta ou suporte tenham sido acionados. Para o governo, isso evidencia falhas nos sistemas de proteção e supervisão destinados a menores.
Cálculo do valor e medidas urgentes
O valor de R$ 500 milhões foi calculado a partir de dez infrações atribuídas ao Discord pela AGU. A legislação prevê multa administrativa de até R$ 50 milhões por infração, e o governo usou esse teto para chegar ao montante pedido na ação. Caso a condenação seja aceita, o dinheiro será destinado ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos.
Além da indenização, a União requer uma decisão urgente que obrigue o Discord a adotar novas medidas de proteção em até 15 dias, sob pena de multa diária de R$ 500 mil. Entre as exigências estão mecanismos para impedir a recriação de servidores e comunidades já retirados do ar, bloqueio da republicação de gravações relacionadas aos casos investigados e preservação dos registros das ações de moderação. Se as transmissões ao vivo voltarem a funcionar no Brasil, o governo quer um protocolo para detectar e interromper em tempo real conteúdos que envolvam automutilação, suicídio, violência extrema e outros crimes graves, com comunicação imediata às autoridades.
A operação que investiga o caso, chamada Operação Lívia, foi deflagrada em 4 de agosto e cumpriu mandados em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro. Foram alvos da ação cinco adolescentes e um adulto. A investigação criminal segue em andamento para identificar outros participantes da rede e possíveis vítimas.

