Dívida dos EUA registra ultrapassagem de US$ 40 trilhões

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A dívida dos EUA superou a marca de US$ 40 trilhões pela primeira vez, conforme o balanço diário de caixa e dívida divulgado pelo Departamento do Tesouro na quarta-feira (20).

O documento registrou a dívida pública total em circulação em US$ 40,047 trilhões, valor que inclui títulos do Tesouro detidos pelo público, em US$ 32,266 trilhões, e dívida intragovernamental de US$ 7,782 trilhões.

O avanço do endividamento ocorre enquanto os custos crescentes de programas sociais e os pagamentos de juros superam as receitas, afetadas por cortes tributários, e geram alertas sobre a sustentabilidade fiscal nos próximos anos.

Relatos oficiais mostram que o Tesouro enfrentou um aumento expressivo na oferta de títulos para financiar o déficit, medida que vem pressionando os rendimentos de prazos longos e elevando o custo do serviço da dívida.

Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, destacou o alcance das consequências econômicas antes de comentar as implicações políticas e sociais. “A dívida de US$ 40 trilhões não existe apenas nos livros contábeis do governo; ela se faz sentir em toda a economia e, de uma forma ou de outra, chega ao bolso das pessoas” “Quanto mais contraímos dívidas, mais agravamos a inflação, prejudicamos outras prioridades no orçamento e nos tornamos vulneráveis a emergências internas e turbulências no exterior” “É impressionante como o declínio fiscal de uma potência global pode se tornar previsível”

Nos mercados, a demanda por títulos americanos por parte de investidores estrangeiros diminuiu ao longo do último ano, deixando mais papéis nas mãos de compradores sensíveis a preço e ampliando a volatilidade, escreveu na terça-feira John Canavan, analista-chefe de mercados financeiros do grupo de Serviços Macroeconômicos e de Investidores da Oxford Economics.

Investidores exigiram maior remuneração diante da forte emissão de dívida, resultando em leilões com rendimentos mais elevados: um leilão de US$ 25 bilhões em títulos de 30 anos teve o maior rendimento desde 2021 e os títulos de longo prazo atingiram níveis mais altos em quase duas décadas, enquanto o prêmio de prazo dos títulos de 10 anos subiu para patamares não vistos em mais de uma dezena de anos.

Para tentar conter a alta dos rendimentos de prazos longos, o secretário do Tesouro Scott Bessent anunciou a duplicação do volume de recompra de títulos do Tesouro de 10 a 30 anos, para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.

O Tesouro também reportou o quarto maior déficit mensal da história dos EUA em julho, de US$ 432 bilhões, afetado por reembolsos de tarifas que tornaram as receitas alfandegárias negativas pelo terceiro mês seguido, além do crescimento dos pagamentos da Previdência Social e do Medicare para idosos.

No acumulado dos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, o déficit já superou o total do ano fiscal de 2025, restando dois meses para o encerramento do exercício em curso.

Historicamente, a dívida federal mais que dobrou em menos de uma década, partindo de US$ 19,95 trilhões quando Donald Trump assumiu em janeiro de 2017, e continuou a subir por decisões de política fiscal e por gastos extraordinários durante a pandemia.

Segundo levantamento público, aproximadamente um terço do aumento ocorreu durante dois anos de endividamento intenso para financiar respostas à pandemia da Covid-19 adotadas por administrações de Trump e do ex-presidente Joe Biden, enquanto o restante é atribuído a escolhas fiscais e ao descompasso estrutural entre receitas e despesas.

O crescimento da dívida durante mandatos presidenciais aparece nas contas: a dívida pública aumentou em US$ 7,8 trilhões durante o primeiro mandato de Trump, mais da metade desse montante concentrado na resposta à pandemia; desde que Trump reassumiu em janeiro de 2025, o endividamento subiu em US$ 3,8 trilhões, totalizando US$ 11,6 trilhões em seus dois mandatos até o momento.

Durante o governo de Biden, a dívida aumentou em US$ 8,4 trilhões, impulsionada por gastos com recuperação da covid-19, investimentos em infraestrutura, subsídios para energia limpa e outras prioridades do Partido Democrata.

O Comitê para um Orçamento Federal Responsável estima que decisões fiscais de ambas as administrações elevaram a trajetória da dívida além do previsto pelas leis de gastos vigentes na posse de cada uma, e o Escritório de Orçamento do Congresso calcula que o pacote legislativo do segundo mandato de Trump, a lei chamada “One Big Beautiful Bill”, acrescentará cerca de US$ 4,7 trilhões à dívida.

Em termos orçamentários, os Estados Unidos gastam em torno de US$ 7 trilhões ao ano, dos quais cerca de 60% destinam-se a programas obrigatórios, incluindo Previdência Social, Medicare, Medicaid e assistência a veteranos, com aumentos condicionados ao custo de vida.

O pagamento de juros ao serviço da dívida consome cerca de US$ 1,1 trilhão anualmente, e os custos com juros ultrapassaram o financiamento do Pentágono no orçamento de 2025; nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, esses custos já superaram os gastos com assistência médica do Medicare, tornando-se o segundo maior item do orçamento federal, atrás apenas da Previdência Social.

Conectados aos efeitos fiscais, os movimentos nos mercados e as decisões políticas colocam pressão adicional sobre receitas e prioridades orçamentárias, cenário que agentes de fiscalização orçamentária vêm alertando ser necessário enfrentar por meio de aumento de impostos, corte de gastos ou combinação de medidas, sob risco de uma crise de dívida em maior escala.

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