Pesquisadores da UFMS simplificam técnica para congelamento de células da onça-pintada
Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul criaram um protocolo de criopreservação mais simples para fibroblastos da onça-pintada que elimina a necessidade de equipamentos específicos e mantém a viabilidade das células para uso em pesquisas e técnicas reprodutivas.
A técnica reduz a complexidade do processo ao utilizar apenas nitrogênio líquido durante a criopreservação, o que facilita a implantação de biobancos em laboratórios com infraestrutura limitada e amplia a capacidade de armazenamento de material genético da espécie.
Os biobancos funcionam como reservas genéticas que guardam células e outros materiais biológicos por décadas para uso futuro em estudos e no desenvolvimento de biotecnologias voltadas à conservação, como reprodução assistida e potencialmente clonagem. Manter esse patrimônio genético pode ser determinante para estratégias de preservação de espécies ameaçadas.
O estudo comparou duas formas de congelamento a partir de amostras de tecido da orelha de cinco onças-pintadas mantidas no Instituto Onça-pintada em Mineiros em Goiás. Após o cultivo das células em laboratório, o material foi dividido em dois grupos para avaliação dos métodos de criopreservação.
No primeiro grupo as células foram resfriadas de forma lenta em criotubos, com redução gradual da temperatura antes do armazenamento em nitrogênio líquido. No segundo grupo as amostras foram acondicionadas em palhetas de 0,25 mililitro e submetidas ao congelamento rápido em vapor de nitrogênio antes do armazenamento no mesmo ambiente criogênico.
Após o descongelamento, a integridade e a sobrevivência das células foram avaliadas por microscopia e citometria de fluxo entre outras técnicas laboratoriais. As amostras submetidas aos dois protocolos apresentaram viabilidade semelhante e recuperaram morfologia típica após novo cultivo, indicando manutenção do potencial de multiplicação.
A pesquisadora Thyara de Deco-Souza, integrante do Reprocon da UFMS, ressalta o impacto prático do protocolo. “Ao disponibilizarmos mais um protocolo viável de criopreservação dessas células, ampliamos a possibilidade de que mais instituições adotem essa estratégia de armazenamento.”
O trabalho levou em conta que a técnica convencional requer equipamentos adicionais como o Mr. Frost e um ultrafreezer capaz de manter temperatura de 80 graus negativos, estruturas que nem todos os laboratórios possuem. A alternativa proposta usa apenas nitrogênio líquido durante o processo de congelamento.
Thyara destacou a adaptação do método à realidade de diferentes bancos genéticos. “Nós comparamos duas formas de criopreservação considerando estruturas diferentes de biobancos. Dependendo da realidade de cada laboratório, ele pode optar pelo método que melhor se adapta à sua infraestrutura para manter o material em nitrogênio líquido”
Sobre a dependência do criogênico, a pesquisadora reforçou a função do nitrogênio líquido no armazenamento. “O nitrogênio líquido é indispensável para qualquer biobanco, porque é nele que as amostras ficam armazenadas a longo prazo. Com isso, eliminamos a necessidade de equipamentos adicionais para realizar o congelamento, o que pode facilitar a implantação dessa técnica em mais instituições”
O estudo ganha relevância frente à redução populacional da onça-pintada causada por caça, fragmentação do habitat e atropelamentos, fatores que diminuem a diversidade genética da espécie. Nesse cenário os bancos genéticos se apresentam como ferramentas estratégicas para preservar materiais que podem ser usados em futuras intervenções conservacionistas.
Na conclusão do artigo os autores afirmam que o congelamento rápido em palhetas representa uma alternativa eficiente ao método convencional e amplia a capacidade de armazenamento dos bancos genéticos, além de poder ser adaptado para outros felinos e espécies silvestres ameaçadas.
O trabalho liderado por Sofia Regina Polizelle reúne 12 pesquisadores, sendo 11 vinculados à UFMS e membros do Reprocon, com participação de pesquisadores da USP e da Ufersa, e foi publicado na revista Animal Reproduction. “Sempre que publicamos em revistas científicas internacionais, aumentamos consideravelmente a visibilidade do trabalho. O inglês é considerado a linguagem universal da ciência e publicar nesses periódicos aumenta a possibilidade de que outros pesquisadores encontrem e utilizem essas técnicas”.
