“A gente quer sobreviver” primeira mulher auxiliar no Brasileirão fala sobre machismo no futebol
Aos 44 anos nívia de Lima soma mais de 12 anos no futebol masculino e virou referência ao ser a primeira mulher a atuar como auxiliar técnico no Brasileirão
Nívia de Lima, técnica do sub-20 da Chapecoense, entrou para a história ao atuar como auxiliar no time profissional do clube no empate em 1 a 1 com o Vitória na Arena Condá no domingo de Páscoa. A mesma profissional já havia se tornado a primeira treinadora a vencer uma partida da Copa São Paulo de Futebol Júnior ao levar a Chapecoense de volta à competição após dois anos de ausência.
A promoção de Nívia ocorreu após a saída do técnico Gilmar Dal Pozzo, quando o clube montou uma comissão interina e a assinalou como auxiliar por ser a técnica da categoria mais próxima do profissional. A reportagem do Estadão registra que a treinadora recebeu apoio interno do elenco e do staff enquanto lidava com a dimensão pública do feito.
Ao lembrar da campanha na Copinha, nívia relata surpresa com o alcance do resultado e destaca o trabalho que vinha desenvolvendo havia anos. “Quando aconteceu eu não imaginava que se ganhasse o jogo ia bater recorde, não tinha isso na minha cabeça, queria fazer um bom trabalho, que as pessoas vissem que a Chapecoense era uma equipe bem treinada”
“Quando aconteceu eu não imaginava que se ganhasse o jogo ia bater recorde, não tinha isso na minha cabeça, queria fazer um bom trabalho, que as pessoas vissem que a Chapecoense era uma equipe bem treinada”
Os atletas reagiram com carinho e orgulho, segundo a técnica, e a notícia do feito chegou por meio deles. “Eu falo do carinho e do respeito, eles falaram no vestiário ‘a nossa profe está famosa’, eles vinham me abraçavam, tiravam fotos, a alegria deles. Foi quando peguei meu celular ‘a primeira técnica mulher a vencer uma partida’ e caiu a ficha”
“Eu falo do carinho e do respeito, eles falaram no vestiário ‘a nossa profe está famosa’, eles vinham me abraçavam, tiravam fotos, a alegria deles. Foi quando peguei meu celular ‘a primeira técnica mulher a vencer uma partida’ e caiu a ficha”
Trajetória e desafios desde a infância
Apresentada ao futebol pelo pai, nívia cresceu em ambientes masculinos acompanhando jogos e iniciou a carreira como jogadora. A mãe foi presença constante e formada base de apoio ao assumir sacrifícios para que ela e outras meninas pudessem competir. “Ela abriu mão de muita coisa pra viajar, na época o futebol feminino não era igual hoje, com categorias, eu nova, com 15 anos, já jogava com mais velhas, ela me acompanhava, estava sempre comigo, me incentivava”
“Ela abriu mão de muita coisa pra viajar, na época o futebol feminino não era igual hoje, com categorias, eu nova, com 15 anos, já jogava com mais velhas, ela me acompanhava, estava sempre comigo, me incentivava”
Na fase de jogadora, nívia enfrentou a necessidade de complementar a renda com trabalhos fora do futebol. Sem remuneração adequada, desempenhou atividades como entrega de panfletos e serviço de garçom para se sustentar enquanto treinava e estudava. Já na transição para o trabalho técnico, em 2012, assumiu escolinhas da Chapecoense e enfrentou o primeiro episódio de preconceito quando pais de alunos questionaram sua atuação em turmas de base.
O presidente do clube à época concedeu um mês de experiência sem julgar pelo gênero. Com o tempo, o trabalho fala por si e os mesmos pais que resistiram passaram a elogiar a treinadora, situação que nívia só soube posteriormente e pela qual se diz grata. “Eu acho que estou nessa carreira ainda porque eles não me contaram na época que isso aconteceu, não sei como ia reagir, se teria tranquilidade de trabalhar”
“Eu acho que estou nessa carreira ainda porque eles não me contaram na época que isso aconteceu, não sei como ia reagir, se teria tranquilidade de trabalhar”
Embora relate episódios de preconceito até hoje, nívia afirma ter adquirido maior resistência ao longo dos anos e destaca o acolhimento dentro do clube, especialmente do staff e dos atletas. “Eu sofro preconceito até hoje, mas parece que você vai ficando mais fortalecida, mas na época acho que eu estaria bem frágil, não sei se eu teria coragem de ir pro treino sabendo que as pessoas estariam me avaliando não pelo meu trabalho e sim por ser mulher”
“Eu sofro preconceito até hoje, mas parece que você vai ficando mais fortalecida, mas na época acho que eu estaria bem frágil, não sei se eu teria coragem de ir pro treino sabendo que as pessoas estariam me avaliando não pelo meu trabalho e sim por ser mulher”
Com o aumento de visibilidade, nívia passou a receber mensagens de mulheres que a veem como referência. Ela buscou referências em treinadores homens no início e mais recentemente participa de redes com outras treinadoras para compartilhar experiências e formação. “Eu vi que não estou nessa luta sozinha, eu recebi muitas mensagens ‘olha você me representa’ e isso foi assustador, não imaginava que a gente era essa referência hoje”
“Eu vi que não estou nessa luta sozinha, eu recebi muitas mensagens ‘olha você me representa’ e isso foi assustador, não imaginava que a gente era essa referência hoje”
Nívia ressalta a pressão por resultados no ambiente técnico e a percepção de que a avaliação de uma mulher sofre um escrutínio adicional. Ela sintetiza essa vivência ao falar sobre a necessidade de se manter no cargo e mostrar rendimento. “Quando a gente está nesse ambiente, que tem poucas mulheres, a gente pensa em sobreviver, o treinador já tem essa carga, a gente vive por resultado, quando não tem você vai embora, imagina sendo uma mulher na beira do campo, isso não é se vitimizar, porque se você não mostra resultado é julgava além do seu trabalho por ser mulher e não saber o que esta fazendo ali”
“Quando a gente está nesse ambiente, que tem poucas mulheres, a gente pensa em sobreviver, o treinador já tem essa carga, a gente vive por resultado, quando não tem você vai embora, imagina sendo uma mulher na beira do campo, isso não é se vitimizar, porque se você não mostra resultado é julgava além do seu trabalho por ser mulher e não saber o que esta fazendo ali”
Sonhando com desafios maiores, ela mira comandar uma equipe profissional da Série A e segue se qualificando para isso. “Esse é meu objetivo, estou estudando para isso, me qualificando para isso. Cada vez que estou mais perto, que tenho essas vivências, eu vejo que é aquilo que eu realmente quero”
“Esse é meu objetivo, estou estudando para isso, me qualificando para isso. Cada vez que estou mais perto, que tenho essas vivências, eu vejo que é aquilo que eu realmente quero”
Ela também manifesta o desejo por um ambiente mais propício às mulheres dentro dos clubes e conclama a qualificação e a ocupação de espaços. “Que os clubes tenham essa coragem, e que as mulheres se qualifiquem e continuem buscando espaços, é meu desejo, para que as coisas sejam mais naturais com as mulheres no futebol”
“Que os clubes tenham essa coragem, e que as mulheres se qualifiquem e continuem buscando espaços, é meu desejo, para que as coisas sejam mais naturais com as mulheres no futebol”


