Histórias indígenas ocupam espaços e reacendem sonhos em Mato Grosso do Sul
No mês em que o país volta o olhar para o 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, um painel em Mato Grosso do Sul colocou na cena pública relatos que até então circulavam principalmente dentro de aldeias e famílias, e realçou não só processos de resistência como também protagonismo.
O encontro organizado pela Secretaria de Estado da Cidadania levou à discussão experiências profissionais e trajetórias pessoais sob o título “Indígenas que inspiram, Indígenas na Educação, na Saúde, no Agronegócio e na Justiça, Minha história, minha trajetória, como posso inspirar?”, reunindo quatro convidados de áreas distintas que representam uma presença crescente em espaços institucionais e de mercado.
Os depoimentos reunidos mostram dificuldades materiais e simbólicas, caminhos trilhados entre a vida na aldeia e a atuação fora dela, e a intenção explícita de multiplicar oportunidades para novos chegantes.
Educação em primeira pessoa
Flaviano Franco, educador e liderança indígena, relata que a escola foi decisiva para redirecionar a sua trajetória pessoal e profissional, sem ruptura com a origem.
“Eu sempre digo que o importante não é como a gente começa, é como a gente vai terminar. E, para mim, foi o estudo que mudou o rumo da minha vida.”
Sua caminhada passou por diferentes ofícios antes da universidade, experiências que o confrontaram com barreiras de reconhecimento e com o preconceito no mercado de trabalho.
“Eu precisei provar que era capaz mesmo já tendo qualificação. Foi ali que entendi que não era só sobre formação, era sobre preconceito.”
Formado em pesquisa e com atuação docente, Flaviano relaciona o trabalho em linguagem e educação à necessidade de ocupar espaços de representação e produzir conhecimento sobre os próprios povos.
“Se a gente não ocupar esses espaços, vão continuar falando por nós. A gente precisa ensinar o sistema, porque o sistema não sabe nada sobre nós.”
Saúde, agronegócio e adaptações locais
Laysa Moreira Dorneles, médica do povo Terena, descreve uma formação marcada por trabalho desde a infância, conciliação entre estudo e ocupações informais, e persistência diante de dificuldades financeiras na universidade.
“Desde cedo eu aprendi que, se eu quisesse conquistar algo, eu precisaria trabalhar, me esforçar e não desistir.”
Durante a graduação em Medicina teve que organizar rotinas, assumir atendimentos e manter fontes de renda complementares para não interromper o curso.
“Eu precisei conciliar o trabalho com os estudos para conseguir me manter durante a faculdade. Não foi fácil. Teve dificuldades financeiras, teve cansaço, teve momentos em que parecia que não ia dar.”
Laysa também destaca o enfrentamento de estereótipos sobre a identidade indígena e a importância de ocupar espaços na saúde.
“Muitas pessoas ainda têm um estereótipo do que é ser indígena, como se existisse um padrão único. Mas ser indígena não é aparência. É pertencimento, é cultura, é comunidade.”
“Hoje eu sou uma mulher indígena, médica, ocupando um espaço que não foi pensado para nós.”
No campo do agronegócio, a engenheira agrônoma Tainara Terena combina saberes técnicos e práticas tradicionais ao atuar junto a produtores indígenas, com foco em sustentabilidade e geração de renda.
“Mulher indígena e engenheira agrônoma não é fácil. A gente acha que depois de formada vai ser mais simples, mas não é.”
Graduada pela UFGD, com mais de 14 anos de atuação, Tainara trabalha orientando métodos adaptados à realidade das aldeias e promovendo a agricultura familiar, ao mesmo tempo em que enfrenta impactos climáticos e falta de investimento.
“Eu sempre procuro unir o conhecimento técnico com aquilo que a gente já sabe, que vem dos nossos pais, dos nossos avós.”
“A ideia é mostrar que nós, indígenas, somos capazes de produzir, de plantar, de comercializar, e ainda fazer isso de forma orgânica.”
“Hoje a gente vê produtores que não conseguem mais colher como colhiam antes. O clima mudou, a realidade mudou.”
“Não é só aplicar técnica. É entender a realidade de cada comunidade.”
“Eu quero mostrar que nós somos capazes, sem deixar de lado aquilo que somos.”
Presença na justiça e multiplicação de caminhos
O promotor Fernando Júnior, natural de Dourados e da aldeia Jaguapiru, descreve a chegada a espaços jurídicos como conquista que traz responsabilidade coletiva e a necessidade de abrir caminhos para outros.
“Esses espaços não foram pensados para nós. Existem muros invisíveis, como o preconceito e a dificuldade de acesso.”
A aprovação em concurso público o levou ao Ministério Público do Estado do Pará, instituição que, segundo sua narrativa, carece de representatividade indígena, e hoje exige atuação intensa em demandas diversas.
“Quando a gente chega nesses espaços, a gente carrega uma responsabilidade. A gente não chega sozinho.”
Fernando destaca o objetivo de facilitar trajetórias para novas gerações e de transformar a presença indígena em mudança de perspectiva dentro das instituições.
“A gente quer que outros também cheguem. A gente quer ensinar, ajudar, diminuir esses caminhos.”
“Hoje a gente mostra que é possível chegar e continuar sendo quem a gente é.”
Os depoimentos reunidos no painel, conforme a Secretaria de Estado da Cidadania, apontam para uma tendência de ocupação de espaços formais que vai além da visibilidade simbólica, articulando formação, práticas profissionais e ações voltadas a fortalecer o protagonismo das comunidades indígenas.

