População de peixes migratórios de água doce sofre queda de 81% em cinco décadas

news 174583 1774354275

As populações de peixes migratórios de água doce registraram um declínio drástico de 81% desde 1970 em todo o mundo. O levantamento da Convenção das Espécies Migratórias aponta que a situação é ainda mais crítica entre os megapeixes, que sofreram uma redução populacional de 94% no mesmo período.

O ritmo de colapso dessas espécies supera as perdas registradas entre animais terrestres e marinhos. O estudo elaborado em parceria com a organização WWF e a Universidade de Nevada foi apresentado nesta terça-feira durante a COP15, conferência ambiental que ocorre em Campo Grande até o próximo domingo.

Ameaças aos corredores aquáticos

A sobrevivência desses animais depende de rotas contínuas que interligam áreas de reprodução e alimentação. Barreiras físicas como barragens, alterações no fluxo dos rios, pesca excessiva e mudanças climáticas contribuem para a degradação acelerada dos habitats aquáticos.

A vice-presidente da WWF nos Estados Unidos, Michele Thieme, alerta para a urgência de ações coordenadas entre os países para garantir a preservação das bacias hidrográficas. “A crise que se desenrola sob nossos cursos d’água é muito mais grave do que a maioria das pessoas imagina, e os rios precisam ser gerenciados como sistemas conectados, com coordenação entre fronteiras e investimentos em soluções para toda a bacia agora, antes que essas migrações se percam para sempre.”

Impacto econômico e alimentar

A redução populacional afeta diretamente a segurança alimentar e a economia de bilhões de pessoas que dependem da pesca. A bacia do rio Mekong na Ásia, responsável por 15% de toda a captura mundial de peixes de água doce, concentra a maior parte das espécies ameaçadas e movimenta mais de 11 bilhões de dólares anuais.

Na América do Sul, as bacias dos rios Amazonas e da Prata representam os principais focos de preocupação ambiental. Os peixes migratórios amazônicos respondem por mais de 90% das capturas destinadas ao consumo humano na região, gerando um valor econômico que supera 436 milhões de dólares por ano no território sul-americano.

O documento destaca a relevância dessas espécies para as comunidades locais e povos originários. “Os peixes migratórios da amazônia constituem uma parte importante do tecido biocultural da vida, tradições, visões de mundo, cosmologias e narrativas de muitos povos indígenas.”

Espécies sul-americanas em risco

O relatório identificou 349 peixes de água doce que cruzam fronteiras internacionais e necessitam de medidas de conservação, mas apenas 24 possuem algum grau de proteção formal atualmente. Na bacia amazônica, os pesquisadores mapearam 21 espécies migratórias que demandam políticas de preservação conjuntas entre as nações.

O tambaqui figura entre os animais vulneráveis à sobrepesca e exige cooperação internacional para o alinhamento de períodos de defeso e proteção de áreas de desova em florestas alagadas. A dourada também integra a lista de prioridades governamentais por ser o maior peixe migrador de água doce do mundo.

O governo brasileiro propôs a inclusão do pintado nas listas de proteção da convenção internacional ambiental. O pedido ressalta a necessidade de ações conjuntas na bacia do rio da Prata para combater os impactos da pesca predatória e das hidrelétricas.

PUBLICIDADE


andorinha

Veja também