Lula diz que terras raras do Brasil devem recuperar a cidadania da América do Sul

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Em pronunciamento nesta quinta-feira (19) em São Bernardo do Campo, no Grande ABC, o presidente colocou as reservas de terras raras e outros minerais estratégicos como fator central para a recuperação da soberania regional e avançou na crítica a iniciativas de exploração externa. “a forma de recuperarmos a cidadania da América do Sul”

No mesmo ato, o presidente expandiu o argumento para condenar práticas históricas de extração e alertar contra novas tentativas de exploração estrangeira. “E agora eles querem nos explorar e fazer a mesma coisa que os espanhóis fizeram com minério de ferro e com ouro: levar e deixar os buracos que eles cavam. E dessa vez nós vamos nos juntar para dizer que os mineiros críticos e as terras raras serão uma forma de a gente recuperar a cidadania do povo latino-americano”

A declaração de Lula foi dirigida também ao interesse manifestado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conforme referência feita no evento, e à ideia de que um país externo poderia resolver os problemas estruturais da região. “A gente precisa adotar como princípio filosófico de vida que nós – e somente nós – poderemos resolver os nossos problemas, os problemas da nossa soberania, os problemas da integridade territorial e o problema da elevação de vida do povo brasileiro e do povo latino-americano”

Ao ampliar a crítica sobre intervenções externas, Lula recordou episódios históricos de ocupação e reafirmou a necessidade de protagonismo regional na gestão dos recursos naturais. “Tem países que acham que o Trump vai resolver os problemas que atingem os países da América. Os espanhóis ficaram 500 anos e não resolveram. Os ingleses também ficaram por lá por um tempo e não resolveram. Os americanos não resolveram”

Cerimônia e homenagem a Pepe Mujica

No mesmo dia, Lula participou da solenidade de entrega do título de Doutor Honoris Causa in memoriam ao ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, concedido pela Universidade Federal do ABC, evento realizado no Centro de Formação e Educação Permanente Cenforpe em São Bernardo do Campo.

Lucía Topolansky, ex-vice-presidente do Uruguai e viúva de Mujica, esteve presente e entregou à universidade uma cópia do livro do ex-presidente, Semillas al Viento. “Para mim, isso tem um valor enorme porque a educação deve alcançar e abrir suas portas universalmente para todos, tanto para aqueles que trabalham quanto para aqueles que ainda não tiveram acesso a ela porque, infelizmente, ao longo da história, as universidades nem sempre proporcionaram esse espaço”

Ao falar sobre a relação pessoal e política que manteve com Mujica, Lula lembrou a convivência e destacou o caráter humano do ex-presidente uruguaio. “Eu tive o prazer de conviver com o Pepe Mujica depois que ele foi eleito presidente do Uruguai. Eu pude conhecer muito mais do que um presidente da república, eu estava diante de um ser humano muito especial”

O reitor da UFABC, Dácio Roberto Matheus, justificou a concessão da honraria como reconhecimento de valores democráticos e de integração regional, entregando uma avaliação institucional do legado do uruguaio. “Que a vida de Pepe Mujica seja uma inspiração para nossa juventude, para as nossas universidades e para todas e todos nós, na tarefa de construirmos uma grande frente em defesa de um país cada vez mais justo, soberano e menos desigual”

Em pronunciamento por meio eletrônico, o atual presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, também saudou a homenagem e ressaltou o legado político e intelectual de Mujica. “Agradeço sinceramente tudo o que o velho Pepe nos deixou, sejam lições ou uma forma de pensar, mas também agradeço a vocês por manterem a chama acesa e preservarem o que aprendemos. Aprendemos muito com isso”

Trâmites da honraria e contexto

A concessão do título de doutor honoris causa foi aprovada pelo Conselho Universitário em junho de 2024 e ratificada pela reitoria da UFABC, com a justificativa de reconhecer a atuação de Mujica em prol da democracia, da diversidade e da integração regional. Mujica faleceu em 13 de maio do ano passado, aos 89 anos, em Montevidéu.

Quando informado sobre a honra em 2024, Mujica manifestou o desejo de que Lula participasse da cerimônia de entrega; Lula já havia recebido a mesma distinção da UFABC em 2013, sendo o primeiro agraciado com o título pela universidade.

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