PUBLICIDADE
Pantanal aqueceu mais e perdeu mais chuvas que outros biomas em 40 anos

queimadas
Cidades são responsáveis por 88% dos focos de calor no Estado

A maior planície alagável do planeta está secando e esquentando rapidamente, com sérias consequências para seu ecossistema e populações

O Pantanal, conhecido como a maior planície alagável do mundo e o menor bioma do Brasil, registrou o maior aumento de temperatura e a mais significativa diminuição de chuvas nas últimas quatro décadas. Entre 1985 e 2024, a temperatura média na região subiu 0,47 grau Celsius por década, somando quase 1,9 grau Celsius ao longo desses 40 anos. Dados de um período de 45 anos indicam, paralelamente, uma redução média de 10,45 milímetros na quantidade de chuva por década no bioma.

Essa combinação de calor extremo e menor pluviosidade tem se manifestado em secas prolongadas e grandes incêndios florestais. Em 2020, mais de um quarto da área do Pantanal foi consumido por queimadas extensas, resultando na morte estimada de 17 milhões de animais vertebrados. Uma nova temporada de estiagem severa ocorreu em 2024, considerada a maior dos últimos 40 anos, agravando o cenário com mais focos de fogo.

Chuvas escassas e temperaturas acima da média estão previstas para 2025 em MS
Aumento das queimadas e diminuição das chuvas impactaram drásticamente o Pantanal

O meteorologista Gilvan Sampaio, do CPTEC-Inpe, comenta sobre a origem desses incêndios. “A maioria das queimadas não tem origem natural, é causada pelo homem. É intencional e pode ser obra de criminosos”. Estudos recentes ainda indicam que 99% das queimadas no bioma são causadas por atividades humanas.

O ritmo de aquecimento no Pantanal supera em 60% a média nacional e de outros biomas importantes como Amazônia e Cerrado. A temperatura média na região, entre 1985 e 2024, alcançou 26,2 graus Celsius, superior à média brasileira de 24,6 graus Celsius e dos demais ecossistemas. Luciana Rizzo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e coordenadora do MapBiomas atmosfera, explica a situação. “Os biomas próximos do centro do continente, como o Pantanal e o Cerrado, estão longe da influência moderadora do oceano e aquecem mais rapidamente do que os ecossistemas mais perto da costa atlântica”.

Pantanal seco com incêndios e áreas verdes, mostrando o impacto das mudanças climáticas

O meteorologista José Roberto Rozante, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, principal autor de um estudo na revista Atmosphere, observa a natureza do problema. “O artigo sugere que o aquecimento climático não é decorrente de uma causa natural e só pode ser causado por uma ação antropogênica. Não se trata apenas de variações cíclicas que naturalmente ocorrem de tempos em tempos”. A degradação ambiental nos biomas vizinhos, Amazônia e Cerrado, também contribui para o problema, impactando os “rios voadores” que abastecem o Pantanal. 

O meteorologista Luiz Machado, do IF-USP, que colaborou no levantamento MapBiomas atmosfera, detalha a situação. “Se chove menos na Amazônia e menos umidade vai para o Pantanal, a vazão de água em seus rios é menor”. A supressão da vegetação na Amazônia, por exemplo, está ligada a quase 75% da diminuição da pluviosidade na estação seca.

Essas alterações climáticas estão, aos poucos, eliminando o elemento mais marcante do Pantanal: o ciclo de cheias e secas conhecido como pulso de inundação. Entre 1985 e 1994, a área anualmente alagada no bioma era de 16 mil quilômetros quadrados. Contudo, entre 2014 e 2024, essa extensão caiu para apenas 4,6 mil quilômetros quadrados, representando uma redução de quase 75%. Em 2024, o ano mais seco já registrado, a área inundada diminuiu 73% em comparação com a média histórica, ameaçando a sobrevivência de espécies típicas como jacarés e tuiuiús.

Diante de um clima mais seco e quente, com eventos extremos cada vez mais frequentes, o Pantanal tem demonstrado dificuldade em se recuperar plenamente dos abalos. O climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), aponta a fragilidade do bioma. 

“O Pantanal não se recuperou das grandes secas e ondas de calor recentes. É uma região muito vulnerável, de transição entre a Amazônia e a bacia do rio da Prata”.

news 163186 1770300034

Quando seca prolongada e altas temperaturas ocorrem simultaneamente, criando os chamados “eventos compostos”, o bioma não consegue se reestabelecer, tornando-se mais vulnerável a futuras anomalias. Marengo ainda destaca que “atualmente o centro e o norte do Pantanal são as partes mais afetadas pela redução do ciclo das águas no bioma”, com o surgimento de zonas subúmidas secas no oeste de Mato Grosso do Sul a partir de 1990.

PUBLICIDADE
andorinha

Veja também