STF registra dois votos contra marco temporal em julgamento sobre terras indígenas
Dois votos contrários ao marco temporal foram computados pelo Supremo Tribunal Federal em sessão do plenário virtual que julga quatro ações sobre a tese que limita o reconhecimento de terras indígenas.
O relator do caso apresentou seu posicionamento primeiro e declarou que a proposta é incompatível com a proteção constitucional conferida aos povos indígenas, incluindo uma determinação sobre o prazo para conclusão de demarcações.
“A imposição do marco temporal implicaria restrição indevida ao princípio da vedação ao retrocesso e à proteção insuficiente dos direitos fundamentais”
Gilmar Mendes também estabeleceu que todas as demarcações de terras indígenas devem ser concluídas no prazo de dez anos.
O ministro Flávio Dino juntou seu voto ao do relator e reafirmou que a proteção constitucional não pode depender de uma data específica como condição para reconhecer territórios.
“Qualquer tentativa de condicionar a demarcação de terras indígenas à data da promulgação da Constituição de 1988 afronta o texto constitucional e a jurisprudência consolidada pelo Supremo Tribunal Federal”
A votação permanece aberta até quinta-feira, 18, às 23h59, e ainda faltam oito votos para o julgamento ser concluído.
Contexto e antecedentes
Dois anos após o STF ter declarado o marco temporal inconstitucional, o tema voltou a ser submetido à Corte, em continuidade ao debate sobre a regra que vincula direitos territoriais à posse em 5 de outubro de 1988.
Em 2023 a Corte entendeu pela inconstitucionalidade do marco temporal e o então presidente da República vetou parte da Lei 14.701 de 2023 que buscava validar a regra. O Congresso derrubou o veto e a norma passou a vigorar na prática com a tese do marco temporal.
Com a derrubada do veto, passou a prevalecer a regra que condiciona o reconhecimento de territórios à posse dos povos indígenas na data da promulgação da Constituição Federal ou à existência de disputa judicial naquele momento.
Após a votação sobre o veto, os partidos PL, PP e Republicanos protocolaram ações no Supremo para sustentar a validade do projeto de lei que incorporou a tese do marco temporal, enquanto entidades representativas de povos indígenas e legendas alinhadas ao governo apresentaram recursos ao STF para contestar novamente essa mesma tese.
Trâmite legislativo paralelo
Paralelamente ao julgamento no Supremo, o Senado aprovou na semana passada a proposta de Emenda à Constituição 48 de 2023 que insere a tese do marco temporal na Constituição Federal, movimentando o debate entre cortes judiciais e instâncias legislativas.

