Câmara cobra LHG e pode pedir suspensão de licença após denúncias em Corumbá

A Câmara Municipal de Corumbá poderá recorrer às autoridades competentes para pedir a suspensão da licença de exploração mineral da LHG Mining caso a empresa não resolva os problemas ambientais e estruturais cobrados pelos vereadores. A possibilidade foi anunciada pelo presidente do Legislativo, Ubiratan Canhete de Campos Filho, o Bira, durante sessão na terça-feira (3), depois de reclamações sobre a água avermelhada na região de Antônio Maria Coelho e o afundamento parcial de uma barcaça carregada com minério no Rio Paraguai.

Os dois episódios passaram a concentrar as cobranças dos parlamentares, que também questionaram o transporte de minério pela BR-262, a contratação de trabalhadores locais e o retorno econômico da atividade para o município. Bira afirmou que a Câmara está disposta a atuar junto aos órgãos responsáveis para buscar providências caso a mineradora não apresente soluções.

A cobrança ocorre enquanto a Marinha conduz um inquérito administrativo para esclarecer as circunstâncias do acidente no Porto Gregório Curvo, na região de Porto Esperança. Durante participação na Câmara, também na noite de terça-feira, o comandante da Capitania dos Portos do Pantanal, capitão de fragata Eduardo Miranda, informou que a investigação tem prazo de 90 dias para ser concluída.

Barcaça permanece no terminal enquanto Marinha apura causas

A embarcação utilizada pela LHG Mining sofreu um rompimento parcial na região central e afundou em parte no sábado (31), durante operação no terminal portuário. Segundo o comandante, a Capitania tomou conhecimento do caso imediatamente e abriu investigação para identificar o que provocou o acidente e se houve responsabilidade de alguma pessoa ou empresa.

Representantes da mineradora e trabalhadores portuários estão sendo convocados para prestar depoimento. A apuração considera possíveis fatores técnicos, operacionais e humanos, incluindo a forma como a barcaça foi carregada e a quantidade de minério transportada. Durante a sessão, vereadores levantaram hipóteses sobre concentração de carga e fadiga do material, mas Miranda afirmou que ainda não havia elementos para confirmar essas possibilidades.

A documentação da embarcação estava regular, conforme informou o comandante. A barcaça passou por inspeção da Capitania em 24 de julho, recebeu aprovação e também possuía certificação de entidade classificadora e seguro. A regularidade dos documentos, no entanto, não elimina a possibilidade de falha material, que permanece entre os pontos investigados. A embarcação tem mais de dez anos de uso.

Enquanto a apuração avança, a área do acidente permanece isolada e sinalizada, e o terminal está sem operar. A retomada depende da retirada segura da barcaça e da verificação das condições do local e da carga. A empresa manifestou intenção de remover a estrutura, mas precisa apresentar um plano de salvatagem elaborado com participação de empresa credenciada e profissionais habilitados. O documento ainda deverá passar pela análise da Capitania e pela aprovação do Comando do 6º Distrito Naval.

O acompanhamento também envolve o Ibama e o Imasul. Os órgãos compartilham informações e realizam monitoramento da água para verificar alterações de turbidez e a possível presença de materiais provenientes do acidente. Ainda não foi confirmado se houve saída de minério da embarcação nem quais impactos ambientais podem ter ocorrido.

Vereadores cobram mudanças no transporte e retorno para Corumbá

O afundamento da barcaça ampliou uma série de reclamações que já envolviam a atividade da mineradora na região. Em Antônio Maria Coelho, moradores relataram alteração na água de uma nascente que forma o córrego Piraputanga. A coloração avermelhada levou a comunidade a questionar a qualidade da água utilizada no abastecimento. Vereadores foram ao local acompanhados pelo prefeito Gabriel Alves de Oliveira e por integrantes da administração municipal para verificar a situação.

Durante a sessão, Bira também relacionou o problema à movimentação de caminhões e ao transporte de minério. O tráfego entre a região de Maria Coelho e o Porto Gregório Curvo foi apontado como fator de desgaste do pavimento da BR-262 e de aumento dos riscos para quem utiliza a rodovia.

Como alternativa, o presidente da Câmara cobrou avanço em projetos de transporte ferroviário e hidroviário. Em audiência pública anterior, a LHG havia apresentado planos de investimento que incluíam uma esteira de aproximadamente 12 quilômetros para levar o minério até a ferrovia e, depois, ao porto para escoamento pela hidrovia. Também foi mencionado o projeto de expansão da extração para 30 milhões de toneladas. Bira defendeu a redução do transporte rodoviário, embora tenha reconhecido que uma estrutura dessa dimensão pode levar anos para sair do papel.

A discussão também alcançou os valores que a mineração deixa para os cofres municipais. Bira afirmou que a extração aumentou, mas os repasses da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) diminuíram. Os números apresentados por ele indicam arrecadação de R$ 39,4 milhões em 2022, R$ 28,9 milhões em 2023, R$ 32,3 milhões em 2024 e R$ 21,2 milhões em 2025.

A geração de empregos e a valorização dos trabalhadores de Corumbá também foram cobradas. O vereador Roberto Façanha defendeu maior contratação de mão de obra local, enquanto Matheus Cazarin pediu união entre os parlamentares para cobrar qualidade, segurança e retorno econômico para a população. Alexandre também defendeu investimentos no município e a oferta de cursos técnicos e profissionalizantes para preparar trabalhadores para o setor mineral.

Além das contratações, Alexandre questionou as condições das barragens da empresa na região de Maria Coelho e cobrou informações sobre a fiscalização contínua das estruturas. Já o vereador Hesley Santana propôs ampliar a articulação com deputados estaduais. Segundo ele, o deputado Paulo Duarte já levou questionamentos à Assembleia Legislativa e procurou os Ministérios Públicos Estadual e Federal para tratar dos episódios recentes.

A vereadora Hanna cobrou a retomada de um canal permanente de comunicação entre a mineradora e as comunidades. Segundo ela, a estrutura de relacionamento que existia durante a operação da Vale deixou de funcionar após a chegada da LHG. A parlamentar relatou que a troca frequente de representantes da empresa dificulta a continuidade das conversas e o acompanhamento das reivindicações dos moradores.

A Câmara marcou para segunda-feira (9) uma sessão com a participação de diretores das empresas mineradoras que atuam em Corumbá. A expectativa é que os representantes prestem esclarecimentos aos vereadores e à população sobre os problemas levantados, os investimentos anunciados e as medidas previstas para atender às demandas do município.

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