Flávio Bolsonaro é intimado pela PF a entregar passaportes por ordem de Moraes
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes em até 24 horas, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão também proíbe o parlamentar de manter contato com o advogado Willer Tomaz, investigado em um inquérito sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas do setor de apostas.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio afirmou que recebeu a intimação na rua, quando saía do condomínio onde mora, no Lago Sul, em Brasília, para visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
O senador atribuiu a medida a uma declaração do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que defendeu a saída do irmão do Brasil caso ele perdesse a eleição. Segundo Flávio, a decisão judicial teria sido baseada nessa manifestação.
— Hoje de manhã eu fui visitar o meu pai, como vocês sabem, ele está em prisão domiciliar. E quando eu estava saindo, a Polícia Federal do Lula estava na porta da casa dele e no meio da rua eu fui intimado a entregar os meus passaportes e também estou proibido de deixar o país. A decisão do Alexandre de Moraes se baseou numa fala do Eduardo de 23 de outubro que eu deveria deixar o país se eu perdesse a eleição — afirmou Flávio.
Eduardo Bolsonaro fez a declaração em entrevista a um programa dos Estados Unidos, onde mora, antes da divulgação do resultado eleitoral. Na ocasião, ele também defendeu que o irmão contestasse o resultado das urnas em caso de derrota.
— Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza. Com certeza — disse Eduardo.
Flávio questionou a justificativa da decisão e negou que tenha considerado deixar o Brasil. O senador também relacionou a medida ao resultado da eleição e afirmou que pretende cumprir a determinação judicial e contestá-la.
— Eu nunca falei isso (de deixar o pa. Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é justiça? E mais: essa decisão foi tomada no domingo à noite, logo depois do anúncio do resultado da eleição. Pensa comigo, se eu tivesse ganhado as eleições, ia acontecer a mesma coisa? Flávio Bolsonaro eleito, essa PF ia estar do mesmo jeito, me intimando no meio da rua? Isso é um sinal que a nossa democracia faliu. Foi uma decisão tomada conforme o resultado da eleição, uma questão política, não pode ser assim. Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar, mas ninguém vai me calar.
Investigação sobre apostas apura movimentações financeiras
A intimação ocorre em meio a uma investigação conduzida pela Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas e plataformas de pagamento relacionadas a Willer Tomaz. Flávio Bolsonaro também é investigado nesse procedimento, que tramita no STF sob relatoria de Alexandre de Moraes.
A apuração começou a partir de um procedimento da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. O caso chegou ao Supremo após os investigadores identificarem referências ao senador, que tem foro por prerrogativa de função.
Entre os elementos analisados está uma conta bancária vinculada à Alcazar Holdings, empresa relacionada ao advogado. Conforme os investigadores, Flávio aparecia no cadastro como usuário com acesso privilegiado, identificado como “master”. A PF busca esclarecer a natureza desse vínculo e verificar se o parlamentar realizou movimentações financeiras.
Os investigadores também apuram registros de viagens, encontros e relações comerciais entre os dois. Uma das linhas de investigação envolve a origem e o destino de valores movimentados por empresas ligadas ao advogado.
Em uma das contas analisadas, foram identificadas operações que somaram aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025. A PF procura esclarecer se as movimentações envolveram recursos de origem ilícita ou mecanismos para ocultar patrimônio.
Na sexta-feira anterior à intimação, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores relacionados a Willer Tomaz. O ministro também ordenou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial do advogado, além da suspensão de atividades econômicas, financeiras e empresariais de companhias ligadas a ele.
As medidas foram adotadas após a Polícia Federal apontar indícios de movimentações suspeitas e possíveis mecanismos de ocultação de recursos por meio de empresas do setor de apostas.
A defesa de Willer contesta as determinações e considera que a investigação promove uma devassa indiscriminada em sua vida pessoal e profissional. Os advogados alegam que o bloqueio de até R$ 6 bilhões é desproporcional e não corresponde ao patrimônio do investigado.
Os representantes do advogado também negam que Flávio tivesse poderes para movimentar recursos na conta da Alcazar Holdings. Segundo a defesa, os dois mantêm uma relação de amizade, mas nunca movimentaram dinheiro um do outro.
Flávio igualmente nega irregularidades e afirma que sua relação com Willer é exclusivamente pessoal.
PF investiga financiamento do filme Dark Horse
O senador também é alvo de outro inquérito no Supremo, sob responsabilidade do ministro André Mendonça. A investigação apura suspeitas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Nesse caso, a Polícia Federal apura a participação de Flávio na negociação de recursos com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e ex-dono do Banco Master, para viabilizar a produção cinematográfica.
Mensagens e áudios analisados pelos investigadores indicam que o senador participou de tratativas com Vorcaro sobre o financiamento. A PF busca esclarecer a origem dos valores, a estrutura das operações e a eventual ocorrência de crimes, entre eles lavagem de dinheiro.
Na semana anterior à intimação, a corporação solicitou a Mendonça mais 90 dias para concluir o inquérito. O pedido considera a necessidade de aprofundar diligências, realizar análises financeiras e obter informações que dependem de cooperação internacional.
A prorrogação, caso autorizada, permitirá que os investigadores continuem reunindo provas antes da elaboração do relatório conclusivo. Flávio nega irregularidades e sustenta que os recursos negociados para o filme tinham natureza privada.
Investigações podem continuar no STF após fim do mandato
Flávio Bolsonaro permanecerá no Senado até fevereiro de 2027, quando termina seu mandato. A saída do Congresso, porém, não significa necessariamente que os inquéritos serão transferidos para a primeira instância da Justiça.
Em março de 2025, o Supremo firmou entendimento de que investigações e ações penais relacionadas a crimes supostamente cometidos durante o exercício de um cargo público e em razão das funções desempenhadas podem continuar no tribunal mesmo após o encerramento do mandato.
A decisão foi aprovada por sete votos a quatro e alterou a jurisprudência anterior, que previa, como regra, o envio dos processos à primeira instância quando a autoridade deixava o cargo. O entendimento recebeu complementação do Supremo em maio daquele ano.
A permanência dos casos de Flávio Bolsonaro no STF dependerá da relação entre os fatos investigados e o exercício do mandato parlamentar, conforme os critérios estabelecidos pela Corte.
