Grupo da LHG cresce com benefícios fiscais enquanto retorno da mineração perde força em Corumbá
O grupo J&F, controlador da LHG Mining, amplia sua presença em Mato Grosso do Sul com empresas atendidas por programas de incentivos fiscais, ao mesmo tempo em que a mineradora avança com uma expansão bilionária em Corumbá. A operação faturou R$ 5 bilhões em 2025 e pretende mais que dobrar a capacidade de produção, enquanto os royalties da mineração recebidos pelo município caíram de R$ 39,4 milhões em 2022 para cerca de R$ 19 milhões em 2025.
Segundo informações divulgadas pela própria LHG, a capacidade anual da operação passou de aproximadamente 2 milhões de toneladas quando a J&F assumiu o negócio, em 2022, para 12 milhões de toneladas. O novo projeto prevê investimento próximo de R$ 4 bilhões para chegar a 25 milhões de toneladas por ano.

O crescimento da mineradora também aparece nos resultados financeiros. A companhia informou receita líquida de R$ 5 bilhões em 2025, aumento de 147% em relação ao ano anterior.
Além da expansão, a LHG aparece em levantamento feito a partir de dados públicos da Receita Federal com mais de R$ 46 milhões em benefícios tributários federais. O valor não inclui os incentivos concedidos pelo Governo de Mato Grosso do Sul a outras empresas ligadas à J&F.
O conglomerado da família Batista também controla a JBS, que mantém operações enquadradas em programas estaduais de benefícios fiscais. Entre elas está a JBS Aves, em Caarapó, incluída no Frango Vida, programa que concede crédito presumido de ICMS conforme as regras estabelecidas pelo Estado.
A política de incentivos fiscais de Mato Grosso do Sul alcançou R$ 11,95 bilhões em renúncias previstas para 2026, de acordo com estudo da FGV Ibre baseado nas contas estaduais. O montante considera mais de 1,5 mil empresas de diferentes setores. O Governo do Estado não informa quanto cada beneficiária recebe individualmente, sob justificativa de sigilo fiscal.
Royalties caíram enquanto produção aumentou
Dados da Prefeitura de Corumbá mostram que a arrecadação da CFEM, royalty pago pela exploração mineral, caiu mais de R$ 20 milhões entre 2022 e 2025. Os valores abrangem todas as mineradoras instaladas no município e são distribuídos pela Agência Nacional de Mineração.

Nos quatro primeiros meses deste ano, entraram R$ 4,329 milhões nos cofres municipais, contra R$ 7,828 milhões no mesmo período de 2025. A redução foi próxima de 45%.
A queda ocorre em um momento de expansão da produção mineral no município. A LHG, que hoje mantém capacidade de 12 milhões de toneladas por ano, pretende acrescentar outros 13 milhões de toneladas à operação quando concluir o novo projeto.
Em julho de 2025, durante a apresentação da expansão, a expectativa levada à Prefeitura era de que o empreendimento pudesse gerar cerca de R$ 350 milhões anuais em CFEM, ICMS e ISS quando estivesse funcionando em plena capacidade. A projeção ainda não representa receita efetivamente arrecadada pelo município.
A geração de empregos aparece entre os principais “retornos” apresentados pela empresa ao defender os efeitos econômicos da mineração. A LHG informou anteriormente ao Folha MS que mantém cerca de 2,4 mil trabalhadores diretos e que ampliou a massa salarial desde a entrada da J&F no negócio.
Emprego e investimento também aparecem entre os compromissos considerados pelo Governo do Estado na concessão e manutenção de benefícios fiscais. Conforme regras da Sefaz, empresas atendidas pelos programas precisam demonstrar o cumprimento das metas previstas nos acordos firmados com Mato Grosso do Sul.
No caso de Corumbá, o retorno econômico da mineração envolve ainda royalties, arrecadação de serviços e contratação de empresas locais. A Prefeitura já informou ao Folha MS que prestadores do município perderam espaço na cadeia do setor, com reflexos sobre o ISS e sobre a circulação de recursos dentro da economia local.
Estado também atua na expansão da LHG
O projeto da LHG também conta com medidas do poder público para viabilizar a nova estrutura de transporte. Em fevereiro, o Governo de Mato Grosso do Sul declarou 845,9 hectares de utilidade pública para permitir desapropriações destinadas à implantação de estruturas ferroviárias e logísticas ligadas à expansão.
Conforme termo publicado no Diário Oficial do Estado, o projeto de ampliação da extração e do beneficiamento, estimado em mais de R$ 4 bilhões, resultou em R$ 53,2 milhões de compensação ambiental. Outro empreendimento da companhia, a ampliação do Terminal Privativo Gregório Curvo, gerou obrigação de R$ 21,5 milhões.

As compensações estão ligadas aos impactos previstos no licenciamento e fazem parte das exigências para a execução dos projetos. A companhia também mantém investimentos sociais e ações comunitárias, frequentemente citados em manifestações públicas sobre sua atuação em Corumbá.
Esses valores convivem com uma operação que ganhou escala rapidamente e com um grupo econômico que mantém empresas beneficiadas por programas estaduais de incentivo. Em Corumbá, onde ocorre a retirada do minério e se concentra parte da estrutura necessária para a atividade, a CFEM arrecadada em 2025 ficou cerca de R$ 20 milhões abaixo do valor registrado três anos antes.
A LHG foi procurada pelo Folha MS para informar quais benefícios fiscais recebe atualmente e quanto aplicou, no mesmo período, em ações sociais e comunitárias voluntárias em Corumbá, excluindo tributos, salários, CFEM e compensações obrigatórias. A empresa não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.
A solicitação de um detalhamento sobre os benefícios fiscais do conglomerado do grupo no estado, também foi solicitado à Sefaz que igualmente não respondeu à reportagem. Um novo pedido, desta vez através da lei de acesso à informação será requisitado pela reportagem.
