Casos de bactéria comedora de carne aumentam com aquecimento dos oceanos

Praia com aviso de contaminação bacteriana e oceano ao fundo

A infecção rara que pode destruir tecidos em até 48 horas preocupa autoridades, enquanto águas mais quentes expandem o habitat da Vibrio vulnificus

Com o avanço do aquecimento global, a bactéria Vibrio vulnificus, conhecida por causar a fasciíte necrosante, tem aparecido em regiões antes improváveis, como a Costa Leste dos Estados Unidos e o Mar Báltico. Dados apontam que as infecções por feridas provocadas por esse microrganismo cresceram oito vezes entre 1988 e 2018 na costa leste americana. Embora os casos anuais ainda sejam raros nos EUA, entre 150 e 200, a doença mata cerca de uma em cada cinco pessoas infectadas. Na Europa, o número de ocorrências também aumentou, segundo especialistas.

Essa bactéria vive naturalmente em águas marinhas quentes e salobras, mas as mudanças climáticas estão criando novos habitats. Ela já foi encontrada em áreas do norte da Europa e em estados como Nova York e Connecticut. Além disso, os fenômenos climáticos extremos, como furacões e marés de tempestade, elevam o contato das pessoas com águas contaminadas, o que explica picos de casos. O cenário é agravado pelo crescimento global de pessoas vulneráveis a infecções graves, como diabéticos e aqueles que usam medicamentos imunossupressores, conforme especialistas da área de saúde.

Bill Sullivan, professor de microbiologia e imunologia da Universidade de Indiana, alerta que a bactéria libera toxinas que destroem tecidos abaixo da pele, incluindo músculos, nervos e vasos sanguíneos, podendo ser fatal em até 48 horas sem tratamento. Embora o estreptococo do grupo A seja a causa mais comum da fasciíte necrosante, a Vibrio vulnificus também é apontada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) como um agente relevante.

Os primeiros sintomas de uma ferida infectada incluem febre, vermelhidão, dor intensa ou inchaço no local. Se isso ocorrer, é essencial buscar atendimento médico imediato. O tratamento é uma corrida contra o tempo: antibióticos intravenosos são usados para matar as bactérias, mas em muitos casos é necessária cirurgia para remover o tecido danificado, podendo levar à amputação de membros. Há ainda a preocupação com o aumento da resistência da bactéria a determinados antibióticos, o que pode tornar futuros casos mais difíceis de tratar.

A transmissão ocorre pelo contato de feridas abertas com água do mar ou salobra, e também pelo consumo de frutos do mar crus ou mal cozidos, especialmente ostras. Nos Estados Unidos, a Vibrio vulnificus é uma das principais causas de morte por ingestão de frutos do mar. Por isso, o CDC recomenda que pessoas com cortes recentes, piercings ou tatuagens evitem essas águas. Se o contato for inevitável, a ferida deve ser coberta com curativo impermeável. Lavar bem com água e sabão qualquer ferimento ocorrido durante a pesca ou natação é outra medida preventiva.

Pessoas com sistema imunológico enfraquecido, como idosos ou portadores de doenças hepáticas, câncer, HIV ou diabetes, estão mais suscetíveis a quadros graves. No entanto, a fasciíte necrosante permanece rara, com incidência comparável a ataques de tubarão. Ainda assim, o “tubarão microscópico”, como alguns chamam a bactéria, pode custar uma vida ou um membro, ressaltam os especialistas.

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