Caminhões de minério transformam ruas de Corumbá e Ladário em corredores de carga pesada
Caminhões carregados de minério atravessam diariamente bairros de Corumbá e Ladário por ruas que não foram estruturadas para suportar o tráfego pesado da atividade mineral. Em trechos sem pavimentação, a passagem das carretas espalha poeira avermelhada sobre casas, empresas e instituições, enquanto a tentativa de conter o material com água transforma alguns pontos em lamaçais e aumenta os transtornos para quem precisa circular pela região.
A rota urbana envolve vias como a Rua Frei Liberato e a Rua Emília Alves, em Ladário, além da Avenida Senador Paulino Lopes da Costa, em Corumbá. Os caminhões seguem em direção aos portos instalados na região e dividem espaço com moradores, veículos de passeio, pedestres e serviços que funcionam nos bairros atravessados pelo transporte mineral.

O problema ganhou dimensão suficiente para entrar na mira do Ministério Público de Mato Grosso do Sul. Perícia realizada na Rua Frei Liberato encontrou material particulado em imóveis próximos à estrada e registrou os efeitos provocados pelo trânsito de veículos pesados.
Poeira entra nas casas e chega a instituições
Na região mais afetada, a poeira não fica restrita à pista. Moradores de Ladário relataram ao Ministério Público que o material avermelhado alcança as residências e interfere na rotina das famílias.

A situação também afeta instituições instaladas próximas às rotas. Em Corumbá, o Senai chegou a ameaçar encerrar as atividades da unidade por causa dos efeitos da poeira sobre equipamentos utilizados nos laboratórios. A unidade funciona no município desde 1960 e apontou o aumento dos custos de manutenção como consequência do material particulado.
Ao lado do Senai, a Apae também enfrenta os efeitos do tráfego. Segundo a instituição, a umectação da rua não impede que o pó alcance o prédio, onde são realizados cerca de 12 mil atendimentos por mês. A circulação das carretas ainda danifica calçadas e dificulta a acessibilidade de pessoas atendidas no local.

O problema se repete em Ladário. Na Rua Emília Alves, moradores de um residencial convivem com a lama formada depois da aplicação de água para conter a poeira. O recurso, usado como medida emergencial, não elimina o impacto da passagem dos caminhões e cria outro problema para quem utiliza a via.
Foi exatamente essa situação que a perícia examinou na Rua Frei Liberato. Na primeira vistoria, os técnicos encontraram poeira e partículas avermelhadas em imóveis próximos. Na segunda, após a adoção da umectação, havia trechos com excesso de água e formação de lama, dificultando o tráfego e aumentando o risco de acidentes.

O laudo pericial anexado ao procedimento do MPMS recomendou a pavimentação da via e indicou medidas de controle do tráfego e da velocidade enquanto a solução definitiva não é implantada.
Carretas dividem espaço com o trânsito das cidades
O problema não está apenas nas ruas de terra. As carretas também precisam atravessar áreas com circulação intensa de moradores e veículos. Um dos pontos de conflito está na Avenida Rio Branco, utilizada como ligação entre Corumbá e Ladário, onde o tráfego pesado se mistura ao movimento cotidiano das duas cidades.
A operação cria uma situação pouco comum para uma via urbana. Caminhões de grande porte transportam cargas minerais enquanto carros, motocicletas, ônibus, bicicletas e pedestres seguem pela mesma estrutura viária.

Nas áreas sem pavimentação, o peso dos veículos acelera o desgaste da pista. Quando a água é utilizada para reduzir a poeira, a condição da estrada muda e pode surgir lama. Quando a via seca, o tráfego volta a levantar partículas.
O próprio Ministério Público analisou alternativas para tentar reduzir esse problema. Uma nota técnica avaliou a possibilidade de utilização de cascalho de calcário nas vias, mas apontou riscos ambientais associados à solução e considerou a pavimentação asfáltica como alternativa permanente mais adequada.
A perícia também apontou que a circulação dos veículos pesados provoca impactos na qualidade do ar e registra ruído produzido pelos caminhões. A avaliação sonora, porém, foi qualitativa porque os peritos não dispunham de equipamento específico para realizar a medição dos níveis de ruído.
Cidades tentam adaptar infraestrutura ao transporte mineral
Enquanto a pavimentação não alcança todos os trechos utilizados pelas carretas, empresas e poder público adotam medidas para tentar reduzir os transtornos.
A LHG Mining afirma que mantém caminhão-pipa dedicado à umectação das vias e realiza manutenção nos trechos utilizados pelo transporte. A empresa também informou ao Ministério Público que reduziu o período de circulação de caminhões para o Porto Granel Química. Segundo a mineradora, o transporte que anteriormente ocorria durante 24 horas passou a funcionar das 6h às 19h.

Em Ladário, o Estado iniciou a implantação da rede de drenagem da Rua Frei Liberato dentro de uma obra anunciada em R$ 18 milhões para pavimentação do trecho.
Em Corumbá, a pavimentação da Avenida Senador Paulino Lopes da Costa também aparece como solução para retirar uma das rotas de terra da operação cotidiana dos caminhões. A obra, porém, ainda não tinha previsão de início conforme as informações reunidas na apuração.
A solução de maior alcance está no projeto de um anel viário para retirar o tráfego pesado da área urbana de Ladário. A proposta prevê cerca de 10 quilômetros de extensão, ligando a MS-428 à BR-359 e chegando à região do entroncamento com a BR-262.
O projeto foi aprovado pela Agesul e, segundo o município, teve custo de aproximadamente R$ 60 milhões estimado para execução pelo Estado em 2027.
Até que essas intervenções sejam concluídas, porém, os caminhões continuam utilizando as ruas existentes. A consequência é uma rotina em que a mesma via precisa atender à logística da mineração e à vida cotidiana dos moradores.
É nesse espaço compartilhado que aparecem os principais efeitos da operação. Poeira dentro das casas, lama depois da umectação, calçadas danificadas, dificuldades de acessibilidade, desgaste das ruas e caminhões pesados circulando junto ao trânsito urbano passaram a fazer parte da rotina dos bairros atravessados pela rota do minério.
