Hospital Regional de Três Lagoas realiza primeira cirurgia cerebral pelo SUS para tratar Parkinson

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O Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, em Três Lagoas, realizou neste mês a primeira cirurgia de implante de eletrodos para estimulação cerebral profunda oferecida pelo SUS no estado, procedimento indicado para casos específicos e mais graves da doença de Parkinson.

O paciente foi o servidor público aposentado Gilberto Barbieri, 58 anos, morador de Nova Andradina, município localizado a cerca de 260 quilômetros de Três Lagoas. O procedimento ocorreu no dia 05 de março em unidade administrada pelo Instituto Acqua em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde.

O neurocirurgião Eduardo Cintra Abib, responsável pela operação, detalhou a técnica e a estratégia adotada durante o procedimento. “Colocamos um eletrodo de cada lado do cérebro, porque cada hemisfério controla o lado oposto do corpo. Durante a cirurgia o paciente permanece acordado, para podermos testar os movimentos e identificar o ponto exato de estimulação que melhora sintomas como tremor e rigidez”

Após a implantação, os eletrodos foram conectados a um aparelho semelhante a um marca-passo, posicionado na região do peito, que envia impulsos elétricos ao cérebro para modular a atividade que controla os movimentos. A programação inicial do dispositivo será feita em retorno ao hospital em aproximadamente duas semanas, quando serão realizados os primeiros ajustes conforme os sintomas predominantes do paciente.

O paciente permaneceu um dia na Unidade de Terapia Intensiva e mais dois dias em observação, recebendo alta no dia 8 de março. Conforme previsto na rotina de acompanhamento, a etapa de programação e os ajustes finos da estimulação ocorrerão no retorno, com avaliação da rotina e dos efeitos sobre tremor, rigidez e instabilidade.

Nem todos os doentes com Parkinson são candidatos ao procedimento, há critérios médicos rigorosos para indicação. Conforme o neurocirurgião responsável, entre as exigências estão ter pelo menos cinco anos de tratamento, já ter utilizado diferentes medicamentos e encontrar-se em estágio da doença no qual os remédios não controlam mais os sintomas de forma adequada. A técnica pode reduzir em até 80% a necessidade de medicamentos, além de melhorar mobilidade e qualidade de vida.

Gilberto convive com os sintomas há cerca de 15 anos, que começaram com tremores nas mãos e evoluíram para limitações motoras mais severas. Sobre como a doença afetou sua rotina e disposição, ele relatou. “Não tenho mais a vitalidade que tinha antes. Tudo piorou na minha vida com a chegada da doença”

Há mais de dez anos dependente de medicação em intervalos de aproximadamente três horas, o paciente também sofre com efeitos adversos dos remédios, entre eles movimentos involuntários constantes que o fizeram perder peso. Sobre as expectativas após a cirurgia, ele relatou. “O que eu quero é diminuir os remédios e ter mais controle sobre meu próprio corpo”

Gilberto descreveu ainda desejos de retomar atividades antes comprometidas pela doença. “Quero poder fazer coisas simples sem ser refém dos remédios, sem tremer ou ficar paralisado. Quero viajar, pescar, visitar minha irmã que mora em uma fazenda em Pontes Lacerda, no Mato Grosso, e pegar meus netos no colo sem medo de derrubá-los”

A esposa Elcia Oliveira Umbelino Barbieri, 56 anos, acompanhou todo o processo e explicou como a condição do marido afetou a vida familiar. “Hoje sou motorista oficial dele. Hesitamos de sair de casa, dá receio de ir em eventos, festas, porque temos receio de o efeito do remédio acabar e ele congelar ou começar a tremer em público. As pessoas ficam olhando e é uma situação constrangedora, por isso muitas vezes preferimos ficar em casa, em certas ocasiões. Agora temos esperança de que a vida volte a ser mais tranquila”

Integraram a equipe principal do procedimento, além de Eduardo Cintra Abib, o neurocirurgião Marco Aurélio Fernandes Teixeira, os anestesistas Ariane Freitas Neves e Walter Chimello Balhester e os profissionais de enfermagem Raisa Carvalho Batista e Felipe Gabriel Rocini Araújo.

Para o diretor técnico do Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, Marllon Nunes, a realização do procedimento reforça a capacidade do serviço em oferecer tratamento de alta complexidade e ampliar o acesso regional a alternativas terapêuticas. “Este procedimento representa um avanço para o SUS em Mato Grosso do Sul. Oferecer uma cirurgia de alta complexidade como a estimulação cerebral profunda demonstra a capacidade técnica do hospital e reforça seu papel como referência regional e estadual em assistência especializada, ampliando o acesso da população a tratamentos inovadores”

O caso marca um avanço para a rede pública do estado ao disponibilizar uma técnica que, em pacientes selecionados, pode diminuir significativamente a dependência de medicamentos e recuperar autonomia e qualidade de vida.

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