Inteligência artificial deve transformar profundamente quase 30% dos empregos
Estimativas apresentadas durante conferência global indicam que tecnologia mudará execução de tarefas e exigirá novos modelos de capacitação profissional
A introdução massiva da inteligência artificial no mercado de trabalho não deve extinguir ocupações em massa, mas sim alterar drasticamente a rotina produtiva. Dados apresentados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) durante a Global Labor Market Conference, em Riade, apontam que cerca de 30% dos postos de trabalho passarão por transformações profundas em curto prazo.
Stefano Scarpetta, diretor de Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais da organização, alerta para a abrangência do impacto setorial e a capacidade da tecnologia de assumir funções operacionais. “Mais de 50% das tarefas realizadas nesses empregos poderiam ser executadas pela inteligência artificial. Não há um único setor que não seja afetado pela IA ou que não será afetado no futuro.”
A velocidade de adoção supera ciclos tecnológicos anteriores, com ferramentas como o ChatGPT atingindo metade da população adulta em apenas três anos. O tempo para essa disseminação é três vezes menor do que o necessário para a popularização do computador pessoal e a metade do período que a internet levou para se consolidar.
Apesar das projeções de mudança acelerada, os índices de empregabilidade permanecem em patamares recordes em diversas nações desenvolvidas. O monitoramento junto a empresas que adotaram a tecnologia não detectou redução no quadro de funcionários no nível agregado, afastando por ora a tese de substituição direta da mão de obra.
O consenso entre especialistas aponta para uma transição estrutural onde o foco deixa de ser o cargo estático e passa a ser a atividade desempenhada. Mohammad Alomair, CEO da Elm, defende a implementação de modelos híbridos onde o julgamento humano é preservado e potencializado. “À medida que o trabalho migra de empregos para tarefas, a IA deve apoiar a tomada de decisão humana, não substituí-la.”
A automação de processos burocráticos gera preocupação específica sobre as portas de entrada para jovens profissionais, uma vez que o trabalho braçal intelectual está sendo absorvido. Girish Ganesan, da S&P Global, aponta a necessidade de união entre setor privado e educacional para redefinir o conceito de cargos iniciantes. “Para mim, o grande risco não é a IA tirar oportunidades, mas sim o nosso ecossistema, como o setor privado, formuladores de políticas e instituições de ensino, não se unir para redefinir o que serão os cargos de nível iniciante no futuro.”
Leila Hoteit, do Boston Consulting Group, vislumbra dois caminhos distintos para a produtividade corporativa neste novo cenário. O cenário otimista prevê a criação de novas funções, enquanto o pessimista sugere concentração de ganhos. “Mas em outro, os ganhos de produtividade são captados por poucas empresas, que ganham escala com um número cada vez menor de funcionários.”
A preparação da força de trabalho ainda é incipiente e focada majoritariamente no desenvolvimento das ferramentas em vez de sua aplicação prática pelo trabalhador comum. Apenas uma pequena fração, entre 0,3% e 5%, da oferta de qualificação na OCDE é voltada especificamente para o uso da IA. “O desafio é equipar o trabalhador para que a mão de obra seja potencializada pela IA.”
Plataformas de ensino registram aumento expressivo na procura por requalificação, impulsionadas pela facilidade de uso da tecnologia na vida privada e pela menor barreira de entrada. Anthony Saucito, da Coursera, relata um salto de 300% nas matrículas relacionadas à IA generativa. “Também é importante reconhecer as habilidades humanas que estão se tornando ainda mais importantes em um futuro movido pela tecnologia.”

