Tráfico utiliza carretas de minério para transporte de drogas e funcionários de mineradoras recebiam por Pix em MS
Carretas utilizadas no transporte de minério de ferro na região de Corumbá também serviam para esconder drogas trazidas da Bolívia e distribuídas para diferentes estados brasileiros. Segundo investigação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado de Mato Grosso do Sul (FICCO/MS), uma organização criminosa aproveitava o intenso movimento de caminhões na fronteira e aliciava funcionários de mineradoras para facilitar o esquema.
Supervisores e operadores de balança estavam entre os trabalhadores recrutados pelo grupo. Eles recebiam pagamentos por Pix para permitir que caminhões fossem carregados sem fiscalização, abrindo caminho para o transporte de entorpecentes junto às cargas de minério de ferro.
A estrutura foi identificada durante as investigações que resultaram na Operação Capolinea, deflagrada nesta quinta-feira (15) em Mato Grosso do Sul, São Paulo, Goiás e Minas Gerais. A organização atuava a partir da fronteira de Corumbá com Puerto Quijarro, na Bolívia, e mantinha uma rede de distribuição de drogas para os quatro estados.
De acordo com a FICCO/MS, o grupo negociou aproximadamente 24 toneladas de entorpecentes durante o período analisado. O volume foi identificado nas negociações investigadas e não corresponde à quantidade de drogas apreendida na operação.

Além das carretas de minério, os investigadores descobriram outros métodos utilizados para esconder as remessas. Drogas eram colocadas no interior de pneus, em tanques de combustível de caminhões e também em cargas de grãos.
Uma dessas remessas foi interceptada em agosto de 2025, em Três Lagoas. Na ocasião, foram apreendidos 35 quilos de cocaína e 12,5 quilos de maconha escondidos dentro de um pneu. A investigação relacionou o carregamento à mesma organização que utilizava os fretes de minério na região de Corumbá.
A apuração começou com a análise de um celular apreendido com um dos principais operadores do esquema, que estava escondido na Bolívia. As informações obtidas permitiram aprofundar a investigação sobre os responsáveis pela movimentação das drogas e a participação de pessoas envolvidas nas operações de transporte.
Segundo a FICCO/MS, o comando da organização era exercido por um traficante conhecido nacionalmente, que permanecia escondido na Bolívia havia cerca de seis anos. Ele deixou o Brasil depois de ser beneficiado por um habeas corpus concedido durante um plantão do Tribunal de Justiça.
A investigação também identificou a participação de um vigilante que trabalhava na Delegacia da Polícia Federal em Corumbá. Preso durante a operação, ele é enteado de um dos líderes da organização e, conforme a apuração, repassava informações sobre as atividades policiais realizadas dentro da unidade.
Entre os dados compartilhados estavam a rotina da delegacia, a presença de equipes policiais e a situação dos presos. O vigilante também enviava fotografias de apreensões e documentos obtidos dentro da unidade policial.
As investigações apontam ainda que o funcionário guardava drogas em sua residência e participava diretamente do transporte de entorpecentes entre a Bolívia e o Brasil. Ele teria sido responsável, inclusive, pelo deslocamento da carga apreendida em Três Lagoas em agosto do ano passado.
A operação mobiliza aproximadamente 100 policiais para cumprir 20 mandados de busca e apreensão, 14 mandados de prisão preventiva e sete mandados de prisão temporária. As ordens foram expedidas pela 1ª Vara Federal de Corumbá, que também determinou o sequestro e o bloqueio de bens no valor de R$ 24 milhões.
A Justiça Federal autorizou ainda a inclusão de três investigados que vivem no exterior na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo internacional utilizado para localizar pessoas procuradas pelas autoridades judiciais.
Os investigados poderão responder pelos crimes de tráfico internacional de drogas e organização criminosa.
O nome Capolinea vem do italiano e significa fim da linha. Segundo a FICCO/MS, a escolha faz referência tanto à interrupção das atividades atribuídas ao principal investigado quanto ao encerramento da rota de transporte de drogas que utilizava os fretes de minério de ferro.
A FICCO/MS reúne a Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal Estadual, Polícia Penal Federal e Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande. A força atua de forma integrada no combate às organizações criminosas, sob coordenação da Polícia Federal.
