Último sobrevivente de navio brasileiro torpedeado na guerra morre aos 101 anos

Girgazes Agostinho de Brito, último sobrevivente do ataque alemão ao Navio-Auxiliar Vital de Oliveira durante a Segunda Guerra Mundial, morreu na sexta-feira (9), aos 101 anos. Integrante da Marinha desde a adolescência, ele estava a bordo quando a embarcação foi torpedeada pelo submarino alemão U-861 em julho de 1944.

Na noite do ataque, Girgazes dormia antes de assumir serviço como eletricista volante na praça de máquinas. O torpedo atingiu o navio às 23h55 de 17 de julho, quando o Vital de Oliveira navegava pelo litoral do Rio de Janeiro em missão ligada à defesa das rotas marítimas brasileiras.

Dos cerca de 270 brasileiros que estavam na embarcação, aproximadamente 100 morreram no naufrágio. Girgazes conseguiu abandonar o navio e permaneceu no mar até localizar outros sobreviventes reunidos em uma balsa.

Décadas depois, ao recordar os minutos posteriores à explosão, contou que temeu morrer antes de reencontrar a família. “Senhor! Não me deixa morrer sem ver minha mãe!”, lembrou ter gritado enquanto estava na água.

A resposta veio de outro marinheiro, Eleuzo, que ouviu os pedidos e indicou onde estava a balsa usada pelos sobreviventes. Girgazes conseguiu chegar até o grupo e escapou do naufrágio que marcaria o restante de sua trajetória na Marinha.

Adolescente entrou na guerra pelo Atlântico

Natural de Salvador, Girgazes ingressou ainda muito jovem na Escola de Aprendizes Marinheiros da Bahia. Já formado marinheiro, apresentou-se à Força Naval do Nordeste, criada em 1942 para patrulhar o Atlântico Sul e proteger as comunicações marítimas mantidas pelo Brasil com os países aliados.

Antes de chegar ao Vital de Oliveira, passou pelo Encouraçado São Paulo, pelo Cruzador-Auxiliar Belmonte e pelo Navio Hidrográfico Rio Branco. A atuação brasileira naquele período envolvia escolta de comboios, patrulhamento e ações contra submarinos alemães que atacavam embarcações no Atlântico.

A Marinha perdeu três navios durante a guerra e contabilizou centenas de militares mortos. Também foram atacados navios da Marinha Mercante, com elevado número de vítimas entre tripulantes e passageiros.

Pela participação no conflito, Girgazes recebeu a Medalha Serviços de Guerra com duas estrelas. Anos depois, ao passar para a reserva, foi promovido a oficial e encerrou uma carreira iniciada ainda na juventude.

Relato ficou preservado pela Marinha

Em março de 2025, o veterano recebeu em casa o historiador Robert Wagner Porto, então pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Durante o encontro, relatou experiências da guerra para o projeto Memória, dedicado à preservação de depoimentos de militares.

O material gravado foi incorporado ao Laboratório de História Oral da Marinha e passou a servir como registro direto da participação brasileira na Batalha do Atlântico. Segundo Porto, Girgazes era o último sobrevivente conhecido do ataque ao Vital de Oliveira.

Parte das memórias também deu origem ao documentário “Vital: Memórias que não naufragaram”, produzido pelo Centro de Comunicação Estratégica da Marinha. Girgazes participou do lançamento da produção em julho deste ano, na Capitania dos Portos de Sergipe, em Aracaju.

Em setembro, o documentário venceu uma categoria do VIII Festival de Cinema de História Militar. A produção também recuperou a história do navio e reuniu depoimentos sobre a atuação brasileira no conflito.

O ataque voltou ao centro das pesquisas depois que destroços do Vital de Oliveira foram filmados no fundo do mar por um veículo operado remotamente. Girgazes acompanhou à distância o trabalho que mostrou, pela primeira vez, imagens da embarcação afundada havia oito décadas.

Mesmo depois de completar 100 anos, continuava participando de registros sobre a própria experiência. Ao resumir a trajetória durante uma das gravações feitas pela Marinha, deixou uma frase curta sobre os anos de serviço e sobrevivência: “essa é apenas minha vida, que foi de sacrifício”.

Girgazes morreu um dia antes do Dia dos Veteranos da Marinha, celebrado em 10 de outubro. Seu depoimento permanece arquivado pela instituição como uma das últimas memórias em primeira pessoa de um militar brasileiro que sobreviveu a um ataque direto durante a Segunda Guerra Mundial.

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