PF recebe denúncias sobre voo de secretário de Riedel em jato ligado à família Batista

Duas representações protocoladas na Polícia Federal nesta terça-feira (8) pedem investigação sobre o desembarque do secretário de Estado de Governo e Gestão Estratégica, Rodrigo Perez Ramos, de um jato executivo no feriado de 7 de setembro. Os documentos foram apresentados pelo deputado estadual João Henrique Catan (Novo) e pelo ex-deputado federal Fábio Trad (PT), ambos candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul e adversários do governador Eduardo Riedel (PP).

As duas peças foram encaminhadas à Superintendência Regional da PF em Mato Grosso do Sul, comandada por Carlos Henrique Cotta Dangelo. Apesar de apresentarem abordagens diferentes, Catan e Trad pedem que sejam preservadas as imagens do videomonitoramento do Aeroporto Internacional de Campo Grande e os registros aeronáuticos relacionados ao voo do Embraer Phenom 300, de matrícula PS-VFA.

Catan apresentou uma representação parlamentar de 18 páginas. Segundo o documento, ele estava no aeroporto para embarcar com destino a São Paulo quando presenciou o desembarque e registrou as imagens com o próprio celular.

Na representação, o deputado relaciona o avião ao Aeródromo Fazenda Eldorado, em Iaciara (GO), de onde teria partido o voo. A peça também cita a Agroparana Ltda. e a VLBM Participações Ltda., empresa que opera a aeronave, além de registros envolvendo o mesmo CNPJ-base sob o nome JBS Agropecuária.

O documento de Catan também menciona a Operação Vostok e levanta, como hipótese, a possibilidade de eventual vantagem econômica concedida a agente público estar relacionada a interesses empresariais perante o Estado.

Trad, por sua vez, protocolou uma notícia de fato de sete páginas com base no artigo 5º, § 3º, do Código de Processo Penal. O ex-deputado cita como fundamento reportagens publicadas pelo InvestigaMS nos dias 7 e 8 de setembro.

Na peça, Trad faz uma ressalva sobre a informação de que o avião pertenceria à JBS. O documento afirma que o comunicante não sustenta essa propriedade e trata a operação pela VLBM e a origem da aeronave em Goiás como informações jornalísticas que ainda precisam de confirmação oficial.

O ex-deputado também não atribui crime a nenhuma das pessoas citadas e registra sua condição de candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul.

Segurança também é alvo de questionamentos

A presença de um segundo homem nas imagens também foi incluída na notícia de fato apresentada por Trad. Ele aparece de terno ajudando Perez a retirar malas pretas da aeronave e é identificado no documento como segurança da Governadoria.

Trad pede que a Polícia Federal identifique o homem e, caso seja confirmado que ele é servidor ou agente público, verifique sua função, órgão de lotação e escala de serviço no dia 7 de setembro.

A representação também solicita informações sobre eventual ordem ou missão de serviço, autoridade responsável pela designação, motivo do acompanhamento e possível pagamento de diária, indenização ou hora extra. O documento cita ainda a necessidade de verificar eventual uso de veículo, combustível, equipamento ou outro recurso público.

O ex-deputado pede que também sejam identificados os veículos que deixaram o aeroporto transportando os passageiros e as malas. Caso apareçam indícios de irregularidade eleitoral, a solicitação é para que as informações sejam encaminhadas à Procuradoria Regional Eleitoral.

As duas representações fazem perguntas semelhantes sobre a viagem. Entre elas estão quem disponibilizou a aeronave, quem pagou pelo voo, qual foi a origem, quem estava a bordo, quantas malas foram transportadas, a quem pertenciam e qual foi o destino dos passageiros e da bagagem.

Catan questiona no documento por qual razão um agente público de primeiro escalão do Governo de Mato Grosso do Sul estaria sendo transportado em uma aeronave vinculada a um grupo empresarial com interesses econômicos e tributários no Estado.

Trad apresenta questionamento semelhante e pede que, caso a aeronave tenha sido disponibilizada gratuitamente por um terceiro, sejam esclarecidos quem concedeu o benefício, por qual motivo e em quais circunstâncias.

Aeronave é operada por empresa ligada à família Batista

O PS-VFA é um Embraer EMB-505 Phenom 300 fabricado em 2024. Conforme os dados citados na representação, o Registro Aeronáutico Brasileiro aponta o Bradesco Leasing como proprietário, enquanto a aeronave está em arrendamento desde março de 2025 e é operada pela VLBM Participações Ltda.

A empresa tem entre seus sócios Valére Batista Mendonça Ramos, filha do fundador da JBS e irmã de Joesley e Wesley Batista; Fabrine Batista Ramos Moreira, sobrinha de Joesley; e Aguinaldo Gomes Ramos Filho, presidente da J&F, holding que controla a JBS.

Até a publicação desta matéria, o Governo de Mato Grosso do Sul não havia se manifestado sobre o episódio. A Secretaria de Estado de Governo e Gestão Estratégica não confirmou nem negou que o passageiro fosse Rodrigo Perez, não informou a origem e o destino do voo, não esclareceu se a viagem tinha caráter oficial e também não explicou a presença do segurança nas imagens.

A relação empresarial é questionada pelos autores das representações em um momento em que a JBS possui benefícios fiscais no Estado e no município de Campo Grande. Pelo programa estadual Frango Vida, frigoríficos enquadrados recebem de volta entre 32% e 50% do ICMS.

Em Campo Grande, a empresa obteve em janeiro isenção de ISS e IPTU pelo período de nove anos. Os documentos também citam o crescimento da renúncia fiscal estimada pelo Estado, que passou de R$ 5,58 bilhões em 2023 para R$ 11,95 bilhões em 2026. O valor correspondente a cada empresa é protegido por sigilo fiscal.

A investigação solicitada à Polícia Federal deverá esclarecer a origem e a finalidade do voo, as circunstâncias do embarque e desembarque e eventual participação de agentes públicos ou recursos do Estado no deslocamento.

PUBLICIDADE

Veja também