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Estudo reclassifica fósseis encontrados em Corumbá

Microtomografia de fósseis filamentosos em rocha sedimentar indicando filamentos preservados e estruturas celulares

Estudo reclassifica fósseis de 544 milhões de anos encontrados em Corumbá e aponta que estruturas eram corpos de microrganismos e não trilhas de animais

Um trabalho publicado na revista Gondwana Research concluiu que fósseis do interior de Mato Grosso do Sul e de trechos do Grupo Bambuí em Minas Gerais e Bahia não representam os primeiros animais a povoar o fundo marinho, mas sim comunidades de bactérias e algas. A nova interpretação corrigiu leituras divulgadas em 2017 e altera a identificação de vestígios que vinham sendo citados como evidência precoce de animais nos oceanos.

A revisão foi conduzida por uma equipe liderada por Bruno Becker Kerber, da Universidade de Harvard, com participação do docente do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp Lucas Warren. Os pesquisadores combinaram técnicas de imagem de alta resolução que permitiram reconstruir morfologias e examinar estruturas internas sem destruir as amostras, o que levou à identificação de paredes celulares preservadas e da organização interna dos filamentos.

Como a reavaliação foi feita

Foram empregadas microtomografia lâminas petrográficas e microscopia eletrônica de varredura para caracterizar os registros morfológicos. As microtomografias ocorreram na linha de luz Mogno do acelerador Sirius no CNPEM em Campinas o que possibilitou visualizar o interior das rochas tridimensionalmente. Combinadas à análise de cortes finíssimos e às imagens de alta resolução os métodos mostraram texturas poros e detalhes morfológicos que não são evidentes em microscopia óptica convencional e assim descartaram interpretações anteriores.

Ao examinar as amostras os pesquisadores observaram preservação de estruturas celulares grandes variações no diâmetro dos filamentos e ausência de marcas típicas de escavação ou de preenchimento por sedimentos. Esses sinais indicaram que os traçados ondulados nas rochas eram os próprios corpos dos organismos fossilizados e não túneis produzidos por invertebrados que teriam deixado trilhas ao caminhar pelo sedimento.

As características dos filamentos mais finos mostraram compatibilidade com cianobactérias semelhantes ao gênero Oscillatoria enquanto os exemplares de maior calibre foram interpretados como algas ou bactérias filamentosas. Lucas Warren contextualiza a importância desse ajuste na leitura das rochas. “E isso, em si, não é uma novidade para a história da Terra porque as cianobactérias habitavam o oceano há 3,5 bilhões de anos antes destas supostas evidências de trilhas fósseis”.

Outra peça importante para a reclassificação foi a datação das rochas sedimentares em 544 milhões de anos a partir da identificação de um nível de cinza vulcânica incorporado durante a compactação dos sedimentos. A presença desse nível permitiu obter idades mais confiáveis mesmo em materiais sedimentares cuja datação costuma ser complexa por refletirem a idade de sedimentos de origem e não necessariamente do depósito em si.

 “No trabalho nós conseguimos datar esse material em um nível de cinza vulcânica ou seja quando as rochas estavam se formando há 550 milhões de anos algum vulcão explodiu e depositou minerais possíveis de datar junto delas Quando você encontra uma situação como essa com um nível de cinza vulcânica concomitantemente à época em que o fundo marinho estava se desenvolvendo é uma sorte muito grande e é também saber procurar essas coisas”.

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A mudança de interpretação tem impacto direto sobre como se entende o processo de povoamento dos mares durante a transição entre o Pré Cambriano e o Cambriano já que antes essas amostras eram indicadas como exemplos de bioturbação causada por organismos primitivos. Bioturbação refere se ao registro deixado pela atividade de animais no sedimento e não ao fóssil do corpo do organismo e a distinção entre ambos orienta cronologias e hipóteses sobre a emergência de comportamentos complexos no fundo marinho.

Os autores destacam que a revisão faz parte do avanço da ciência na medida em que hipóteses formuladas a partir das evidências disponíveis podem ser revistas com o surgimento de novas tecnologias e novos dados. “Esse trabalho tem essa graça É uma pesquisa que ajuda a eliminar parte do ruído em torno de interpretações que acabam se consolidando por algum tempo e ao mesmo tempo oferece novos critérios para que outros pesquisadores avaliem materiais semelhantes que venham a encontrar”.

* Com informações Midiamax

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