Foragido, Neno Razuk é condenado a 15 anos por organização criminosa armada em Campo Grande
Ex-deputado foi condenado a 15 anos e segue foragido com prisão preventiva decretada enquanto responde a nova ação da operação Successione em Campo Grande
O ex-deputado estadual Roberto Razuk Filho, conhecido como Neno Razuk, foi condenado a 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão por integrar uma organização criminosa armada e por crimes ligados ao controle do jogo do bicho em Campo Grande. A sentença proferida em dezembro de 2025 também incluiu cinco meses de detenção em regime aberto e mantinha inicialmente o cumprimento do restante da pena em regime fechado. Neno segue foragido e teve prisão preventiva decretada em julho de 2026 em outra ação derivada da mesma investigação.
A decisão que impôs a pena foi assinada pelo juiz José Henrique Káster Franco, da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, e condenou o ex-parlamentar pelos crimes de organização criminosa armada, roubo majorado e exploração do jogo do bicho. A defesa nega o envolvimento e informou que pretende recorrer da sentença, que ainda não transitou em julgado.
A investigação que levou às condenações foi conduzida pelo Gaeco e integra a Operação Successione, iniciada em dezembro de 2023 para apurar a disputa pelo controle do jogo do bicho na Capital. A sentença descreve a organização como estruturada, com hierarquia, divisão de tarefas e atuação permanente, com setores de logística, tecnologia, contabilidade e segurança armada. Foram apontados vínculos com policiais militares da reserva e uso de cargos públicos e de informações restritas da segurança pública em benefício do grupo.
Entre as provas consideradas pelo juiz estão interceptações, mensagens, documentos e registros que, segundo a peça condenatória, demonstraram participação de Neno em três roubos majorados cometidos em 16 de outubro de 2023. As ações teriam sido praticadas com armas de fogo contra pessoas que transportavam valores ligados a grupos rivais e teria sido usado um automóvel alugado em nome do então deputado. A Justiça também registrou apreensão de centenas de máquinas de apostas durante as fases da investigação.
A sentença detalha ainda a atuação da organização para ocupar espaços deixados por grupos atingidos por operações anteriores e para disputar pontos de exploração do jogo do bicho, com uso de intimidação, roubos e ameaças para afastar concorrentes. Em diálogos e anotações apreendidas os investigadores encontraram referências a planos de ataque e a uma lista com nomes que, segundo depoimento citado pelo juiz, indicariam intenções de execução.
Em uma transferência de trechos do processo aparecem expressões como “Lista de quem vai pular” seguida por nomes e mensagens que mencionavam a necessidade de matar um suposto delator identificado como “X9”. Em outra anotação houve menção a uma recompensa entre R$ 50 mil e R$ 100 mil pela morte de Henrique Abraão Gonçalves da Silva, também chamado de “Macaulin” ou “Rico”. Outras interceptações registraram o uso da expressão “fritar na bala” em referência a desafetos. Embora esses elementos tenham sido usados para caracterizar a existência de um braço armado permanente, Neno não foi condenado por homicídio ou tentativa de homicídio nessa ação.
Além da condenação já imposta em primeira instância, Neno responde a outra ação penal oriunda da quarta fase da Operação Successione, que motivou a decretação da prisão preventiva em julho de 2026. Nesse processo, que segue em andamento, constam investigações sobre crimes de organização criminosa, roubo, corrupção passiva e ativa, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro e exploração de jogos de azar. Parte das informações tramita sob segredo de Justiça, o que impede afirmar com base apenas nas informações públicas que o ex-deputado seja pessoalmente acusado de todos esses crimes.
Neno Razuk teve o mandato de deputado estadual cassado em maio de 2026, após o TRE-MS retotalizar os votos das eleições de 2022 na esteira de decisão do TSE que anulou votos recebidos por outra candidata. A perda do cargo, segundo observações jurídicas feitas no processo, removeu o foro por prerrogativa de função e facilitou a decretação da prisão preventiva contra ele.
Desde o início das investigações o ex-deputado nega envolvimento com as atividades atribuídas à organização investigada e a defesa já anunciou que vai recorrer da condenação de primeira instância.

