Projeto apoia mães e crianças atípicas tratadas com cannabis em Fernando de Noronha

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Uma ação integrada que atende mães e crianças neuroatípicas em Fernando de Noronha promoveu mutirões médicos gratuitos e distribuiu óleos de canabidiol como alternativa terapêutica, com a perspectiva de criar uma sede para acompanhamento contínuo das famílias. O projeto é uma parceria entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinoides, a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha e a Administração Distrital da ilha.

“A maior parte dos mutirões de saúde realizados no Brasil acontece uma única vez. A equipe atende a população e depois vai embora. Em Noronha, estamos construindo algo diferente. Já voltamos à ilha uma segunda vez, retornaremos a cada três meses e agora estamos ajudando a estruturar uma rede permanente de suporte para essas famílias” segundo Alexandre Assis, diretor da Abecmed.

O movimento promoveu dois mutirões, em fevereiro e em maio, que resultaram em 126 consultas e na entrega de 221 frascos de óleo de canabidiol. A iniciativa já viabiliza a construção de uma futura sede em terreno cedido pela administração local, onde pretendem concentrar orientações, acolhimento e acompanhamento multidisciplinar.

“Eu sou a única que cuida dele. A rotina pesada de mãe atípica me levou a um quadro de ansiedade generalizada e problemas com sono” contou Rayane Dixie dos Santos, professora de 31 anos e mãe solo de uma criança com Transtorno do Espectro Autista suporte 2 e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade. Ela relata que o filho iniciou tratamento com canabidiol em março e apresentou redução nas crises de agitação e agressividade.

Rebeca Allen, presidente da associação de mães do arquipélago, também recebeu atendimento no projeto. “Eu comecei a sentir os sinais em torno de 2023, quando estava em busca de ajuda para o meu filho. Comecei a esquecer das coisas, ter falta de ar e pontadas no coração. Mas eu pensava ‘meu Deus, eu sou o contato de emergência do meu filho, eu preciso me cuidar’” conforme relato da mãe que sofreu depressão e transtorno de ansiedade generalizada por causa da sobrecarga do cuidado materno. Rebeca informa que a introdução do canabidiol em fevereiro melhorou seu sono e o controle da ansiedade, e que o filho apresentou menor agressividade e mais colaboração na escola e nas terapias.

Dados e demandas apuradas nos mutirões

O relatório de impacto do mutirão realizado em maio indica demandas persistentes por atendimentos psicológicos e multidisciplinares. Foram atendidas 58 pessoas com queixas relevantes de saúde mental, e entre todas as consultas 70,6% procuraram ajuda por problemas ligados à saúde mental. Na sequência aparecem neurodivergências em 41,3% dos casos, dor crônica e osteomuscular em 29,6%, queixas de sono em 32% e condições neurológicas em 6,8%.

Os sintomas mais reportados incluíram ansiedade em 25 atendimentos, insônia em 16, dor crônica em 11, alterações de humor em 3, crises de pânico em 3, bruxismo em 3 e dificuldades de concentração em 2. Quanto aos diagnósticos de neurodesenvolvimento, foram identificados 10 casos de Transtorno do Espectro Autista, 10 de TDAH, 2 de Transtorno Opositor Desafiador e 2 casos em investigação para TEA ou TDAH.

Contexto de acesso à saúde e próximas etapas

O distrito enfrenta limitações estruturais e geográficas que dificultam o acesso a serviços de maior complexidade. A ilha conta com apenas uma unidade pública de atendimento, o Hospital São Lucas, que atua em média complexidade, e pacientes que precisam de cuidados mais especializados dependem de referências no continente, principalmente em Recife, localizado a 545 quilômetros.

O isolamento também tem impacto na saúde mental da população, com altos índices de depressão, ansiedade e insônia, além de demandas por atenção neurológica. A organização sem fins lucrativos por trás do projeto está coletando dados para quantificar o impacto social e econômico da ação e pretende levar mais pesquisadoras e pesquisadores ao arquipélago para gerar estudos na área, conforme informações da coordenação do mutirão.

Do ponto de vista clínico, voluntários que atuaram na ação explicam fundamentos do tratamento com canabidiol. “Os canabinoides são potentes anti-inflamatórios. Ele tem um efeito antioxidante que é importante em várias condições neurológicas, como epilepsia, esquizofrenia e depressão” segundo o neurologista e voluntário do Projeto Noronha, Eduardo de Sá Faveret.

O psiquiatra voluntário Wilson Lessa Junior diferencia o canabidiol de outros antipsicóticos aprovados para sintomas em pessoas autistas. “A dose [de outros medicamentos] que deixa muito sedado acaba tendo impacto no tratamento ‘ouro’ para o espectro autista, que é o tratamento multidisciplinar, com terapia ocupacional, fono, psicólogo etc. A criança, para poder ter proveito dessa terapia, precisa estar acordada. O canabidiol acaba tendo essa coisa de diminuir a agressividade, mas sem dar sono, e a pessoa permanece ativa” declarou o especialista que participou dos atendimentos.

Além dos efeitos clínicos observados, a iniciativa prioriza o acolhimento das mulheres que acumulam o cuidado integral dos filhos atípicos e pretende retornar periodicamente à ilha para consolidar a rede de suporte prometida pela coordenação.

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