Colômbia registra impasse após Petro não reconhecer pré-contagem eleitoral
O presidente Gustavo Petro rejeitou o resultado preliminar apurado por empresas privadas na eleição presidencial realizada domingo, apontando discrepâncias no processo informático que, segundo ele, alteraram o cômputo dos votos.
Em publicação nas redes sociais, ele detalhou as razões de sua contestação. “Não aceito os resultados da contagem preliminar da empresa privada dos irmãos Bautista, porque, apesar de os algoritmos do software de contagem e apuração deverem permanecer estáticos, foram alterados três vezes na última semana, adicionando 800 mil fichas de inscrição eleitoral pertencentes a pessoas não incluídas no censo oficial”. A declaração marca posição do governo diante de uma pré-contagem que não tem caráter legal.
Petro também afirmou existir uma discrepância estrutural entre cadastros. “As seções eleitorais já contestadas demonstram que centenas de milhares de votos foram adicionados sem a existencia de eleitores inscritos. Portanto, e de acordo com a lei, os resultados vinculativos que o presidente considerará e aceitará são os das comissões eleitorais supervisionadas pelos juízes da República”. A tramitação dos resultados oficiais seguirá, assim, o procedimento regulado pelas comissões escrutinadoras.
Dados da pré-contagem e validade
Conforme divulgado pelo Registro Nacional de Estado Civil, a pré-contagem privada apontou vantagem ao candidato de oposição Abelardo de La Espriella, com 43,7% dos votos (10.361.499), ante 40,9% (9.688.361) do candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda. O comparecimento às urnas foi de 57,8% entre os mais de 41 milhões de eleitores e brancos e nulos somaram cerca de 3%.
O próprio Registro ressalta que a pré-contagem tem caráter meramente informativo e não constitui documento eleitoral vinculativo, e o resultado oficial é computado pelas comissões escrutinadoras, cujo fechamento costuma ocorrer entre duas semanas e um mês.
Empresas envolvidas e respostas de campanha
A contagem preliminar contou com participação da empresa de tecnologia Thomas Greg & Sons, dos empresários Felipe, Camilo e Fernando Bautista, e também da espanhola Indra. A menção aos Bautista foi central na crítica do presidente e motivou pedidos de verificação por parte das forças políticas.
O candidato que liderou a pré-contagem reagiu às cobranças do governo e buscou apoio internacional para o segundo turno. “Ele quer desestabilizar o país e abrir caminho para incendiar a Colômbia. Vamos permitir? Vamos defender a pátria com a razão ou com a força. Que os Estados Unidos da América e países democráticos vigiem esse segundo turno”. A solicitação de vigilância externa foi feita após a divulgação dos números preliminares.
Por sua vez, o candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda, afirmou que a campanha identificou indícios que precisam ser auditados antes de qualquer comentário final. “Estamos falando de 885 mil fichas de inscrição eleitoral. Há informações e indícios sobre um número indeterminado de seções eleitorais. Estamos verificando, com nosso mecanismo de segurança de observação eleitoral, exatamente quantas seções onde ocorreram, segundo relatos iniciais, padrões de votação atípicos”. Cepeda informou que a verificação seguirá pelos canais de observação eleitoral do movimento.
O pesquisador Matheus Petrelli, do Observatório Político Sul-Americano da Uerj, contextualizou a prática da pré-contagem e ressaltou sua limitação jurídica. “Essa contagem está prevista na legislação e já ocorreu previamente, mas não tem validade jurídica. O resultado oficial é contado por comissões escrutinadoras e saem, geralmente, entre duas semanas e um mês”. Seu comentário lembra que o processo informado pelas empresas privadas funciona como sinalização provisória, não como fechamento do pleito.
Petrelli também avaliou as implicações geopolíticas do desfecho eleitoral para a região e a eventual mudança de alinhamentos externos. “O Petro tentou muito se vincular politicamente ao Lula no contexto regional, em pautas ambientais e sociais. A eleição do seu sucessor representa a manutenção dessa proximidade. Já a eleição de Abelardo representaria a retomada do processo de vínculo mais estreito com os EUA”. A observação sublinha que o resultado final definirá rumos de política externa da Colômbia.
O segundo turno está agendado para 21 de junho e o país seguirá o trâmite oficial de apuração cadastrado nas comissões eleitorais, sob supervisão judicial e com possibilidade de contestações formais previstas na legislação eleitoral colombiana.

