Decisão dos EUA é vista como tentativa de limitar soberania do Brasil
A decisão do governo dos Estados Unidos de designar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas é interpretada por analistas como parte de uma doutrina que impõe uma soberania limitada aos países latino americanos, subordinando decisões nacionais aos interesses de Washington.
Especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil dizem que a medida pode abrir caminho para ações externas sem autorização dos países afetados e para maior pressão sobre políticas domésticas.
O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, Paulo Borba Casella, relaciona a possibilidade de medidas diretas a precedentes recentes na região e aponta um exemplo concreto ocorrido na Venezuela.
“O enquadramento como organização terrorista, pela lei americana, permite que o governo dos EUA ataque agentes de tais entidades, sem necessidade de declaração de guerra, nem autorização do Congresso dos EUA”
Conforme a avaliação do professor Paulo Borba Casella, a classificação por lei americana amplia o alcance de ação do governo dos Estados Unidos contra atores considerados terroristas.
Contexto regional e exemplos citados pelos especialistas
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva sustenta que a iniciativa americana segue a lógica de uma política regional mais assertiva adotada pela administração Trump nos últimos anos.
“Os EUA estabelecem o fato de que os países da América Latina têm soberania limitada pelos interesses americanos. E eles podem intervir sempre que acharem necessário, conforme os parâmetros americanos”
De acordo com Francisco Carlos Teixeira da Silva, o movimento faz parte de um padrão que legitima intervenções sob critérios definidos em Washington.
Em novembro de 2025, o governo Trump publicou a nova Estratégia Nacional de Segurança Nacional definindo que os EUA deveriam afirmar sua “proeminência” sobre a América Latina.
O mesmo analista atribui a Washington um objetivo estratégico claro no longo prazo.
“é quebrar a independência dos países e colocar os Estados Unidos novamente na frente da hegemonia nas Américas”
Segundo Francisco Carlos Teixeira da Silva, essa é a meta declarada por parte da política norte americana.
Ao citar casos recentes, Teixeira também lembra que a classificação de organizações como terroristas acompanhou operações em outros países, como o México, onde grupos e cartéis tiveram trechos de sua atuação enquadrados dessa forma.
“Logo em seguida, os EUA enviaram uma equipe da CIA [Agência de Inteligência dos EUA] para dentro do México sem autorização. Os exemplos imediatos desses meses mostram que a classificação [de organizações como terroristas] não vem sozinha, ela vem com consequências”
Conforme a exposição feita por Teixeira, a presença não autorizada de equipes estrangeiras provocou episódios de tensão e questionamentos sobre violação de soberania.
A morte de dois agentes da CIA em um acidente de carro no México em abril deste ano agravou a situação diplomática, segundo relatos, porque a infiltração não tinha autorização nem conhecimento do governo central mexicano liderado por Claudia Sheinbaum.
No Brasil, o professor de economia internacional da UFRJ Luiz Carlos Prado avalia que há risco de a medida interferir na autonomia das políticas internas e na atuação de movimentos sociais.
“Significa que o Brasil não deve ser um país soberano, que a soberania do Brasil está subordinada ao poder político americano, e que o Brasil não deve, portanto, ter uma diplomacia, ter políticas autônomas a partir dos seus interesses domésticos e das suas pretensões domésticas. O Brasil deve ser uma espécie de aliado menor sobre a liderança americana”
Conforme Prado, a designação tende a transformar o relacionamento bilateral em posse de decisões externas sobre prioridades internas.
O mesmo professor destaca o potencial de a lista de grupos apontar para atores sociais e movimentos sem apresentação de provas públicas.
“Os EUA podem, de alguma maneira, designar ou indicar que determinados grupos internos, por razões políticas, dão apoio a essas organizações, agora consideradas terroristas por Washington. Portanto, passam a ter uma motivação, ou uma desculpa, para poder reprimir determinados segmentos específicos.”
De acordo com Luiz Carlos Prado, essa possibilidade amplia os instrumentos de pressão e repressão direcionados a segmentos específicos da sociedade.
Prado acrescenta ainda uma observação sobre a tradição de ações unilaterais em nome da segurança, relacionando a justificativa legal a intervenções em outros teatros de conflito.
“Essa decisão aumenta a margem de manobra e de pressão sobre o Brasil. É a antiga tradição americana de usar, vamos dizer assim, argumentos que não podem ser, em princípio, comprovados para justificar intervenções”
Conforme o professor da UFRJ, esse modelo já serviu de base para medidas externas em regiões conflitantes.
Ele complementa a análise com uma síntese sobre a justificativa jurídica que costuma acompanhar ações militares ou políticas.
“Eles dão uma razão jurídica para uma intervenção política.”
Especialistas consultados destacam ainda que a nova fase da política externa dos Estados Unidos é vista como reação à ascensão econômica e tecnológica da China e como parte da disputa pela liderança da economia mundial.
Segundo os analistas, a combinação de classificações legais, estratégia de segurança e operações de inteligência cria um ambiente em que a margem de autonomia dos países latino americanos tende a ser reduzida e as decisões internas ficam mais sujeitas a pressões externas.

