Classificação de facções como terroristas deve prejudicar economia brasileira

news 185431 1780086969

A decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas do Brasil como organizações terroristas tende a provocar efeitos imediatos e duradouros na economia nacional, atuando sobre fluxos de turistas, captação de investimentos e condições das exportações, conforme avaliação de especialistas em geopolítica e economia.

O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva relata que já recebe questionários de empresas estrangeiras sobre os níveis de segurança no país. “Com a definição de país que abriga terrorismo internacional, esse grau de investimento vai sofrer um impacto muito grande. Bancos, indústrias vão ser impactadas, gerando desinvestimento, cessação de criação de empregos e perda em transferências de tecnologia”

Para Teixeira, a medida também tende a ampliar o escrutínio sobre as vendas externas brasileiras e elevar barreiras não tarifárias. “Tudo que o Brasil exporta vai ficar no nível de produtos passíveis de serem utilizados para exportação de drogas, para atentados terroristas ou contra transnacionais. Esse é o nível mais profundo que vai impactar de forma longa e permanente as exportações brasileiras”

O impacto no turismo é apontado como imediato pelas fontes consultadas, com reflexos na percepção internacional de segurança. O professor da UFRJ destaca a comparação com países vistos como de risco. “Nos coloca ao nível da Somália ou outros países. Nos coloca ao nível de países que a gente chamava antes de países párias, países que não são confiáveis para turismo e viajantes internacionais”

O mesmo professor enfatiza riscos específicos ao turismo de negócios em grandes centros urbanos. “A organização de eventos de negócios em São Paulo deve cair enormemente, é o que a gente chama de turismo de negócios, que é extremamente importante em São Paulo por mover a rede hoteleira e serviços de restaurante, taxi, etc”

O professor de economia internacional Luiz Carlos Prado aponta ainda a possibilidade de uso político da classificação para prejudicar concorrentes no mercado. Ele traz como exemplo episódios recentes no setor financeiro. “Recentemente, houve investigações que envolvem fintechs [empresas financeiras] na área da Faria Lima em São Paulo. Em tese, a decisão dos EUA abre espaço para você ter uma retaliação contínua de apoio ao terrorismo de organizações financeiras no Brasil. Você pode usar politicamente para esse fim”

Prado alerta sobre a maior exposição de empresas brasileiras a alegações que podem restringir sua atuação e agravar a instabilidade. “Aumenta o risco de empresas que atuam no país que possam ser prejudicadas por algum critério que se coloca, reduz a margem de manobra de empresas brasileiras, do Estado brasileiro, aumenta a instabilidade política, e trata das questões específicas do crime organizado”

O governo federal apontou consequências diretas ao sistema financeiro e a serviços inovadores. Conforme comunicado oficial, “Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o Pix, que incomodam interesses estrangeiros”

Ao distinguir terrorismo internacional de crime organizado motivado por lucro, Prado descreve diferenças de apoio e objetivos entre grupos. “O Estado Islâmico tinha seus apoiadores em grupos radicais, inclusive nos países aliados aos EUA, como Arábia Saudita e em vários outros, mas por razões ideológicas. Nenhum grupo criminoso no Brasil tem apoio, por razões ideológicas, na Europa, nos EUA ou na América Central. O que eventualmente pode motivar são interesses econômicos”

Sobre medidas que os Estados Unidos poderiam adotar para combater fluxos financeiros associados ao crime, o especialista em relações internacionais Chico Teixeira sugere ações sobre paraísos fiscais vinculados à jurisdição americana. “O governo Trump deveria suprimir o paraíso fiscal que representa o estado de Delaware, dentro dos EUA, onde vão lavar dinheiro dos criminosos brasileiros. E, em segundo lugar, os paraísos fiscais do Caribe, como Ilhas Virgem e Ilhas Cayman, que estão sob soberania americana”

PUBLICIDADE


andorinha

Veja também