Estudo com células-tronco é testado para reduzir complicações do transplante de medula
Um novo ensaio clínico conduzido pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná vai avaliar uma terapia à base de células-tronco mesenquimais para tratar a doença do enxerto contra o hospedeiro que acomete receptores de transplante de medula óssea e pode ser fatal.
O estudo, que terá 20 participantes, começa em setembro e será realizado no Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, no Hospital Erasto Gaertner e no Hospital Nossa Senhora das Graças, conforme a coordenação do projeto.
A alternativa investigada, batizada de MesenCell, é produzida com células-tronco mesenquimais obtidas da medula óssea de doadores, processadas em laboratório e mantidas congeladas até o momento da aplicação, diferindo de tratamentos tradicionais baseados em corticosteroides.
A doença do enxerto contra o hospedeiro se manifesta de duas formas principais dependendo do período pós-transplante, com quadros agudos nos primeiros cem dias que afetam sobretudo pele e trato gastrointestinal e provocam vermelhidão, ardência, náuseas, cólicas e disfunção hepática, e formas crônicas que podem comprometer o corpo inteiro e causar rigidez, dificuldade para respirar e úlceras.
O tratamento padrão utiliza corticosteroides para reduzir a inflamação provocada pelas células doadoras, mas muitos pacientes não respondem a essas drogas de primeira linha e acabam precisando de corticoterapia mais intensa ou imunossupressores, que nem sempre estão disponíveis no Sistema Único de Saúde e apresentam toxicidade que impede o uso em alguns casos.
A responsável técnica do Centro de Tecnologia Celular da PUCPR e coordenadora do projeto contextualiza o alvo da intervenção e os mecanismos observados em laboratório. “Quem ataca principalmente são as células do tipo T e B, e a nossa terapia diminui a proliferação dessas células. É um efeito que a gente consegue ver até em laboratório. Então, ela atua na base, liberando alguns fatores solúveis que vão modular todo o sistema imunológico do paciente, diminuindo a proliferação dessas células e melhorando toda a inflamação”
O grupo já havia conduzido um estudo-piloto com 11 pacientes portadores de DECH crônica utilizando as mesmas células-tronco combinadas com outra substância, e observou respostas importantes que justificaram a sequência dos estudos.
Metade dos participantes do piloto alcançou remissão completa, enquanto 75% das manifestações gastrointestinais melhoraram e todos os sintomas de pele registraram melhora, inclusive em casos graves.
A coordenadora do projeto descreve a reversão de uma complicação cutânea grave observada nos pacientes do piloto. “Esses pacientes desenvolvem esclerodermia, uma deposição de fibrobastos na pele, e ela fica endurecida, como se fosse uma carapaça, e aí o paciente vai perdendo mobilidade. A gente conseguiu reverter esse processo”
Para esta nova fase, a equipe adotou uma mistura considerada mais viável para a administração das células, após avaliar a formulação usada no piloto, e pretende aplicar o MesenCell prioritariamente em pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais ou que não podem recebê-los por conta da toxicidade.
O estudo é financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos Finep e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq, e os pesquisadores esperam estabelecer posteriormente parceria com alguma farmacêutica para viabilizar a produção em escala do medicamento.

