Profissionais de saúde vencem desafios e ampliam vacinação em áreas indígenas
Equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus mantêm campanhas itinerantes para vacinar 11 mil habitantes em 155 aldeias espalhadas por Acre, Amazonas e Rondônia, apesar de dificuldades de acesso, diversidade linguística e exigências culturais.
O atendimento ocorre a partir de polos-base, com profissionais que chegam às comunidades por caminhonete, barco, quadriciclo, botes ou helicóptero quando o clima inviabiliza a navegação. As ações podem durar até 40 dias em campo e dependem de dispositivos para manter vacinas entre 2º e 8º Celsius, como freezers instalados em embarcações, caixas térmicas e bobinas de gelo.
O risco de surtos reforça a urgência da estratégia. Em 2024, a seca na região impediu navegação por rios e levou um surto de influenza em uma aldeia, que resultou na morte de duas crianças. Diante do quadro, houve mobilização federal e estadual e antecipação em dois meses da vacinação contra influenza para o território, com envio aéreo de insumos e deslocamento de equipes de outros polos.
O trabalho exige também conhecimento da organização interna dos povos. Evangelista Apurinã, coordenador do DSEI Alto Rio Purus, ressalta limites temporais e a necessidade de negociação com grupos específicos antes de relatar as consequências práticas.
“E outra coisa: você os segura em um lugar por, no máximo, umas 3, 4 horas. Depois disso, não segura mais”
Evangelista detalha ainda como a estrutura política entre os Jamamadi pode frustrar acordos feitos com interlocutores sem representatividade maior.
“Então, se você acertar algo com um cacique que não é do clã principal, você pode sair do território achando que está tudo combinado e, quando voltar lá, vai ver que voltou à estaca zero”
O coordenador sintetiza os riscos de ignorar as particularidades sociais ao planejar ações de saúde pública.
“Se a gente não souber desses detalhes, e de fato entender como é a estrutura de cada povo, a gente vai estar colocando a carroça na frente dos bois, e não vai conseguir fazer o serviço”
A operacionalização é baseada em registros precisos. Kislane de Araújo Dias, enfermeira responsável técnica pela área de Imunizações e Doenças Imunopreveníveis do DSEI, descreve o uso de um censo vacinal para monitorar famílias e calcular demandas por aldeia.
“É assim que a gente sabe também quantas doses de cada vacina vamos usar em cada aldeia, para transferir só esse quantitativo exato do estoque para a caixa de movimento diário. Geralmente, a equipe escolhe um local central na aldeia, onde as pessoas são atendidas, mas a gente também vai de casa em casa se precisar, e faz busca ativa dos faltosos.”
A capacitação de profissionais que atuam em áreas remotas tem sido apontada como componente essencial para preservar a qualidade técnica e a comunicação com as comunidades. A enfermeira Evelin Plácido, que ministra treinamentos por meio da CapacitaImune, enfatiza a diferença entre os contextos urbano e indígena.
“Ao contrário do contexto urbano em que as pessoas vão até a imunização, nas áreas indígenas é a vacina que precisa ir até as pessoas. Então, a gente tem que conhecer bem os equipamentos, quantas horas vão durar cada percurso e as rotas precisam ser muito bem estabelecidas antes de ir para o território, para que a gente não exponha a vacina a uma temperatura inadequada, por exemplo.”
Evelin também destaca a necessidade de formação técnica mais ampla, que inclua bases imunológicas e manejo de eventos adversos, para que profissionais possam explicar procedimentos às comunidades.
“Fui percebendo que, ao longo do tempo, que não adianta você ser um profissional excelente, ter o melhor equipamento, conhecer tudo das vacinas, entender sobre técnicas de aplicação, se você não souber se comunicar com as pessoas.”
O curso oferecido em Rio Branco, capital do Acre, foi promovido pela farmacêutica MSD, fornecedora de quatro vacinas ao Programa Nacional de Imunizações do SUS — HPV, Hepatite A, Varicela e Pneumo-23 — e teve entre os objetivos harmonizar práticas e adaptá-las ao cenário local.
Aline Okuma, gerente-médica de vacinas da MSD, sintetiza a motivação para as capacitações dirigidas a profissionais que atuam em territórios remotos.
“Todo mundo precisa de capacitação, só que nas grandes capitais, a chance dos profissionais receberem isso é muito maior do que em áreas mais remotas. A gente identifica muito que algumas práticas não são harmonizadas e acho que essa é a grande valia desse curso: harmonizar práticas, adaptando para o cenário local”
Além das vacinas já previstas no calendário, que superou 20 imunizantes e segue em expansão com recentes incorporações contra dengue e vírus sincicial respiratório, populações indígenas recebem recomendações específicas, como doses anuais contra influenza e covid-19 independentemente da idade, e campanhas de proteção contra a raiva em territórios de difícil acesso.
Profissionais que atuam nos polos enfrentam também o desafio humano de longas ausências de casa e percursos que podem durar dias. Natália Diniz, do polo de Boca do Acre, descreve o cuidado com a condição de visitante ao entrar nas casas e nas rotinas das comunidades.
“No território extramuro, a gente é um convidado. E toda vez que chegamos como convidado na casa de alguém, precisamos pedir permissão, e tem que ter respeito com a rotina dessa casa. Quando a gente faz vacina nos territórios, não é só uma vacina. A gente está dando oportunidade para aquela pessoa ter um futuro com saúde e feliz”
O curso em Rio Branco incluiu atualização sobre normas técnicas, armazenamento, aplicação e descarte de frascos, além de conteúdo sobre imunologia e eventos adversos, conforme a grade apresentada pela CapacitaImune. O aprendizado de técnicas de comunicação foi ressaltado como parte integrante da formação técnica.
O treinamento é a quarta iniciativa desse tipo voltada a profissionais que atuam em saúde indígena ou em áreas remotas. A participação da equipe de reportagem ocorreu a convite da MSD.

