Doação de leite humano é desafio central para bancos sensibilizarem lactantes a doar
O I Congresso da Rede Global de Bancos de Leite Humano, promovido pela Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano da Fundação Oswaldo Cruz, ocorre de segunda-feira (18) a quarta-feira (21) no Hotel Windsor Guanabara, no Rio de Janeiro, em formato híbrido com transmissão pelo canal da rBLH no YouTube e participação via zoom.
O evento, com o tema 15 Anos Promovendo Equidade e Resiliência, marca a celebração dos 15 anos do Dia Mundial de Doação de Leite Humano e reúne especialistas, gestores públicos, organismos internacionais, pesquisadores e representantes da sociedade civil para discutir avanços, desafios e perspectivas da doação de leite humano.
Déficit de oferta e necessidade de sensibilização
A coordenadora da rBLH e do Banco de Leite Humano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, Danielle Aparecida da Silva, alerta que o principal obstáculo para ampliar o atendimento a recém-nascidos prematuros e de baixo peso é a sensibilização das mulheres lactantes para doarem o excedente de leite.
Danielle Aparecida da Silva, coordenadora da rBLH e do Banco de Leite Humano do IFF/Fiocruz, descreveu a prática que motiva a campanha de mobilização.
“É muito comum ver uma mulher que está produzindo muito leite jogar fora o excedente que seu bebê não consome. A gente precisa sensibilizar muito mais a sociedade para que ela se direcione aos bancos de leite. Temos que levar esse conhecimento a ela, para que não jogue fora, mas doe aos bancos de leite humano”
O banco de leite é apresentado como serviço de saúde que apoia a amamentação e recolhe produção excedente, submetendo o leite doado a processamento e controle de qualidade antes de destiná-lo a recém-nascidos internados.
Danielle contextualizou a insuficiência do volume coletado para atender a demanda clínica, especialmente quando a procura por leite aumenta em determinados períodos do ano.
“Só que a gente ainda não alcança o volume suficiente para atender 100% desses bebês. Porque, muitas vezes, essa doação é flutuante ao longo do ano. Após o mês de maio, quando a gente consegue sensibilizar mais a sociedade, a doação cai muito”
Segundo informações da rBLH, o Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira registra, em alguns meses, entre 100 e 150 doadoras e uma produção média entre 100 litros e 150 litros mensais, volume insuficiente para suprir a demanda sobretudo no início do inverno, quando doenças respiratórias elevam o número de internações neonatais.
Distribuição regional e iniciativas
O país abriga mais de 230 bancos de leite humano, estrutura construída ao longo de quatro décadas com a liderança da Fiocruz, que abriga o Centro Colaborador da Opas/OMS para Bancos de Leite Humano com a designação BRA-87.
No estado do Rio de Janeiro há uma rede com 17 bancos de leite, entre eles unidades em Petrópolis, Nova Friburgo, Campos e Volta Redonda, além da capital e da região metropolitana. Apesar da abrangência geográfica, Danielle informou que as doações permaneceram estáveis e em alguns meses reduziram.
O aumento nacional das doações foi de 8%, resultado classificado por Danielle como insuficiente diante das necessidades clínicas.
Danielle Aparecida da Silva comentou sobre a avaliação do crescimento observado nas estatísticas recentes.
“A gente precisava ampliar ainda mais”
Há estados que já atingiram autossuficiência no atendimento por doação, como o Distrito Federal, e relatos de avanços no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. No entanto, as regiões Norte e Nordeste ainda concentram fragilidades, com a maioria das unidades estaduais contando com apenas um banco de leite, exceções feitas ao Amazonas e ao Pará.
A queda nas doações é mais acentuada durante o período de férias e nas festas de fim de ano, e o padrão flutuante ao longo do ano compromete a capacidade de atendimento a 100% dos recém-nascidos que necessitam do leite humano processado.
Além da dimensão nacional, a rede internacional também teve mudanças importantes durante a pandemia de covid 19, quando a rBLH promoveu o primeiro edital aberto à sociedade para escolha de slogan comemorativo, em inglês, francês e espanhol, recebendo contribuições de diversos continentes.
Danielle destacou o alcance e a continuidade do processo participativo na escolha dos temas das campanhas.
“A pandemia trouxe mudanças; a sua doação traz esperança”
Campanhas subsequentes mantiveram a metodologia participativa, e exemplares de reconhecimento internacional incluem o slogan vencedor de 2016 vindo do Equador, apresentado como “A solidariedade nutre e a vida cresce”.
Na programação do congresso serão debatidos os impactos da pandemia, as emergências sanitárias relacionadas às mudanças climáticas, os desafios das crises humanitárias e os caminhos para fortalecer respostas globais alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com ênfase no ODS 3 Saúde e Bem-estar.
Conforme divulgado pela organização do evento, a programação completa pode ser conferida na página da rBLH e as atividades começam diariamente a partir das 8h.
A atuação brasileira na área é reconhecida internacionalmente por meio de cooperação em saúde envolvendo ministérios e agências de cooperação, e a Fiocruz se mantém como referência na qualificação de serviços e no fortalecimento de redes de bancos de leite humano.

