Família brasileira é morta em bombardeio que destruiu casa no Sul do Líbano
Três integrantes de uma família brasileira-libanesa morreram após a residência em Burj Qalowayh, no distrito de Bint Jbeil no Sul do Líbano, ser atingida por um bombardeio enquanto retornavam para buscar roupas e outros pertences, e os corpos ainda não foram encontrados entre os escombros da casa que ficou totalmente destruída.
Entre as vítimas estão a brasileira Manal Jaafar, de 47 anos, o filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos, e o pai do garoto, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos. A família havia deixado o local em 2 de março no início da atual fase do conflito e se refugiado em Beirute.
Com o cessar-fogo anunciado em 16 de abril a família decidiu retornar a Bint Jbeil para recolher mais roupas e pertences antes de voltar a Beirute. Eles chegaram ao Sul do Líbano no sábado (25) e, segundo familiares, o ataque ocorreu no domingo (26) quando parte do grupo ainda dormia na casa.
Bilal Nader, irmão mais novo de Ghassan e libanês-brasileiro que mora em Foz do Iguaçu, explicou a decisão de ficar mais tempo na casa e a situação no momento do retorno e relatou a expectativa simples da família sobre a volta.
“Quando teve o cessar-fogo, muita gente voltou para casa no amanhecer. Ele ainda esperou sete ou oito dias. Ele falou que ia só juntar as coisas e voltar, só para pegar mais roupa. Ele até estava com o carro ligado, sabe, com o porta-malas já carregado”
Bilal também caracterizou o irmão como pessoa pacata, sem vinculação política e com muitos contatos no Brasil e no Líbano, demonstrando surpresa com o ocorrido.
“Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada. Inclusive, ele tem muitos amigos aqui, em Foz [do Iguaçu], no Brasil inteiro. Tem amigos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo. Ele era bem conhecido aqui”
Sobre a área onde a família vivia Bilal ressaltou que a vizinhança não costumava ser palco de combates nas fases recentes do conflito, diferentemente de regiões mais a frente onde, segundo ele, ocorreram ataques e saques.
“As cidades mais para frente é onde estavam acontecendo os bombardeios, onde estão roubando as casas. Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal”
O impacto do ataque feriu outro filho do casal, o estudante Kassam Nader, de 21 anos, que cursa computação no Líbano, e recebeu alta hospitalar na terça-feira (28).
Histórico familiar e ligações com o Brasil
A família viveu no Paraná por mais de 15 anos entre 1995 e 2008. Manal Jaafar obteve a nacionalidade brasileira durante esse período. Ghassan não solicitou a nacionalidade brasileira por falta de tempo, segundo relatos, e trabalhava no ramo de eletroeletrônicos.
O jornalista libanês naturalizado brasileiro Ali Farhat, amigo de Ghassan, rememorou o perfil intelectual e profissional do homem que voltou a viver no Sul do Líbano.
“Ele era muito ativo na comunidade libanesa aqui no Brasil. Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Ele estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois ele decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá”
De acordo com informações oficiais do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Líbano abrigava 22 mil brasileiros em 2023 e o governo brasileiro condenou os ataques ocorridos durante a vigência do cessar-fogo. A Agência Brasil procurou a Embaixada de Israel no Brasil para obter posicionamento sobre o bombardeio à residência da família brasileira no Líbano e não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Contexto do conflito no Sul do Líbano
O Sul do Líbano tem sido alvo de operações israelenses que, segundo autoridades de Tel Aviv, buscam criar uma zona de segurança contra ataques do Hezbollah. O governo israelense vinha defendendo a ocupação da faixa até o Rio Litani a fim de impedir o retorno de civis a parte da região.
No último dia antes do cessar-fogo Israel bombardeou a ponte de Qasmiyeh, que era a última sobre o Rio Litani, isolando a área ao Sul do restante do país e interrompendo a conexão entre cidades como Tiro e Sidon. O deslocamento forçado de populações civis é observado por especialistas como possível crime de guerra.
O especialista em geopolítica Anwar Assi avaliou as ações no Sul do Líbano e apontou intenção sistemática de dificultar o retorno de moradores a suas cidades.
“O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio”
Segundo pronunciamento da Casa Branca, Israel poderia realizar ataques contra o Hezbollah apenas “em legítima defesa, a qualquer momento, contra ataques planejados, iminentes ou em curso”
O atual ciclo do confronto envolvendo Israel e o Hezbollah teve início em outubro de 2023 com ofensivas do grupo xiita contra o norte de Israel em solidariedade à população da Faixa de Gaza. Em novembro de 2024 foi costurado um cessar-fogo entre o Hezbollah e Tel Aviv que, conforme informações, não foi respeitado por Israel, que manteve ataques no Líbano.
Com o agravamento da crise e o início de ações contra o Irã, o Hezbollah voltou a disparar contra Israel em 2 de março em resposta às violações do cessar-fogo e também em retaliação ao assassinado do líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, segundo relatos. Em 8 de abril houve anúncio de cessar-fogo relativo ao conflito com o Irã, mas ataques israelenses no Líbano prosseguiram, em desconformidade com acordos posteriores, incluindo tentativas de mediação por países como o Paquistão.
As investigações sobre o ataque que destruiu a residência em Burj Qalowayh e o paradeiro dos corpos seguem sem desfecho público até o momento.

