Canetas emagrecedoras devem ter uso restrito, alertam autoridades e especialistas

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A diretoria-colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária debate esta semana uma proposta de instrução normativa que estabelece procedimentos e requisitos técnicos para medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP 1, conhecidos como canetas emagrecedoras.

A popularização desses remédios, que incluem princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, ampliou o uso sem critério clínico e estimulou um mercado clandestino que comercializa versões manipuladas e produtos sem registro. Esses medicamentos hoje só podem ser dispensados mediante receita médica.

Em resposta aos riscos à saúde, a Anvisa tem adotado medidas para conter a circulação irregular, criado grupos de trabalho com foco no controle sanitário e firmado uma carta de intenção com o Conselho Federal de Medicina, o Conselho Federal de Odontologia e o Conselho Federal de Farmácia para promover o uso racional e seguro das canetas emagrecedoras.

Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, avaliou que o uso de canetas emagrecedoras para tratar a obesidade e o diabetes figura como uma espécie de revolução, mas que o uso indiscriminado do medicamento preocupa. “São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.”

O dirigente acrescentou outra avaliação sobre o significado da terapia para pacientes crônicos e seus benefícios amplos para a saúde cardiovascular. “Pra quem vive com uma doença que é crônica, ter a promessa, a expectativa, a esperança de um tratamento, a longo prazo que seja, mas que funcione abriu um horizonte. Esses medicamentos são importantes, ajudam muito não apenas na perda de peso e no controle da glicose, mas, sobretudo, para diminuir o risco cardiovascular”.

Os medicamentos atuam por três mecanismos que explicam os efeitos sobre peso e glicemia: ajudam no controle da glicose, retardam o esvaziamento gástrico aumentando a sensação de saciedade e agem no cérebro reduzindo o apetite. Essas ações promovem menor ingestão alimentar e, combinadas com outros hormônios e mudanças de estilo de vida, levam a perdas de peso relevantes, com média de cerca de 15% para a semaglutida e variações que podem chegar a 22% ou 25% com a tirzepatida, conforme dose e acompanhamento clínico.

Dornelas destacou dados de fiscalizações que revelam um descompasso entre o mercado nacional e o volume de insumos importados para manipulação. “Quando se fala em 20 milhões de doses, é um número chamativo, mas mais do que isso: eles apreenderam 1,3 milhão de medicamentos por algum grau de ilegalidade ou irregularidade, seja pelo transporte, pelo armazenamento”. Ele qualificou o cenário como alarmante para a segurança dos pacientes. “Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.”

Para conter o fluxo de produtos fora das normas, as farmácias e drogarias passaram a reter as receitas das canetas emagrecedoras desde junho do ano passado, medida apoiada por entidades médicas. “O consumo desenfreado, eu diria, vem do mercado paralelo”.

Dornelas também sugeriu medidas mais duras sobre manipulação em farmácias de manipulação, propondo interrupções temporárias como forma de mitigação diante do volume observado. “Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade”. “Não se tem estrutura, na agência, suficiente para fiscalizar e fazer tudo isso com um volume de 20 milhões de doses. Então, num ponto crítico como esse, eu defenderia o bloqueio da manipulação, nem que seja por um período transitório, até que se tenha outras medidas mais cabíveis pra isso.”

Quanto aos efeitos adversos, os mais frequentes são gastrointestinais, como náuseas e vômitos, e podem aumentar quando o medicamento vem de fontes sem garantia de qualidade e armazenamento. “Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito”. A Anvisa já registrou relatos de efeitos mais graves, incluindo pancreatite. “A Anvisa começou a registrar efeitos colaterais mais severos, como a pancreatite. A gente que é médico, que avalia, sabe que a pancreatite já é uma doença, infelizmente, muito frequente. No Brasil, são em torno de 40 mil internações por ano. Mas ela habitualmente é causada por dois grandes fatores: bebida alcoólica em exagero ou pedras na vesícula.”

O endocrinologista explicou o elo fisiológico entre o retardo do esvaziamento gástrico provocado por esses fármacos e a possibilidade de formação de cálculos biliares, mecanismo que pode elevar o risco de pancreatite em algumas pessoas. “Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.”

Pilares da segurança

Para reduzir danos e garantir tratamento responsável, os médicos apontam quatro pilares que orientam a prescrição e o uso consciente das canetas emagrecedoras. Primeiro, utilizar produtos de fabricantes legais e registrados no Brasil, o que assegura controle de qualidade e rastreabilidade. Segundo, ter prescrição de médico com registro e acompanhamento, incluindo diagnóstico e seguimento clínico adequados. Terceiro, comprar em estabelecimentos confiáveis, preferencialmente farmácias e drogarias que ofereçam segurança na aquisição. Quarto, usar doses corretas conforme orientação médica e jamais recorrer a mercados paralelos para obter a medicação.

O alerta para sinais de complicação é parte do cuidado clínico e do monitoramento. “Quando a gente fala de efeitos colaterais, não significa que é pra pessoa sentir isso. Náuseas, por exemplo, podem ocorrer entre 30% e 40% dos casos, mas, em tese, não é para acontecer. Então, se a pessoa está usando a medicação e não há efeito colateral, isso é muito bom. Não significa que a medicação não esteja atuando. Entre 60% e 70% das pessoas não sentem nada.” Em seguida, Dornelas ressaltou o sinal que requer atenção médica imediata. “Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante”.

As ações anunciadas pelas autoridades de saúde visam justamente conciliar o acesso a tratamentos que trouxeram resultados expressivos para pacientes com obesidade e diabetes com a necessidade de controle sanitário, prescrição criteriosa e medidas educativas para reduzir riscos associados a produtos irregulares.

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