Autismo no Brasil registra acesso restrito a diagnóstico e terapias, aponta levantamento

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Um levantamento nacional que ouviu 23.632 pessoas revela limitações no acesso a diagnóstico e a tratamentos para transtorno do espectro autista no Brasil.

A pesquisa Mapa Autismo Brasil foi conduzida pelo Instituto Autismos entre 29 de março e 20 de julho de 2025 e coletou respostas de 16.807 responsáveis por pessoas autistas, 4.604 adultos autistas e 2.221 participantes que se declararam simultaneamente autistas e cuidadores.

Diagnóstico e distribuição por rede

Os dados indicam concentração de diagnósticos em idades iniciais, mas também atraso em parcela relevante dos casos, o que compromete intervenções precoces.

Em relação à idade em que o diagnóstico foi confirmado, 51,7% ocorreu até 4 anos, 17,1% entre 5 e 9 anos e 6,1% entre 10 e 14 anos, com mediana de 4 anos e média de 11 anos.

Ao comentar a diferença entre as medidas de tendência central e o perfil dos diagnósticos, o Instituto Autismos chamou atenção para a coexistência de detecção precoce e de diagnósticos tardios

“A diferença entre a mediana (4 anos) e a média (11 anos) revela que, embora a maior parte dos diagnósticos ocorra precocemente, ainda há um número relevante de diagnósticos realizados em idades mais avançadas, que elevam a média da amostra”

Neurologistas e neuropediatras foram responsáveis por 67% dos diagnósticos, seguidos por psiquiatras com 22,9% do total, e a rede privada respondeu por 55,2% dos diagnósticos, enquanto 23% ocorreram por meio de planos de saúde e 20,4% foram realizados pelo Sistema Único de Saúde.

O levantamento também aponta dependência maior do SUS nas regiões Norte e Nordeste, e que os primeiros sinais do transtorno são mais frequentemente percebidos por familiares ou pela própria pessoa autista do que por médicos ou professores.

Terapias, carga horária e custos

Quanto ao tratamento, apenas 15,5% dos entrevistados declararam realizar terapias pela rede pública, ao passo que 35,3% afirmaram usar plano de saúde e 28,5% recorreram à rede privada paga.

As modalidades mais citadas foram psicoterapia com 52,2%, terapia ocupacional 39,4%, fonoaudiologia 38,9%, psicopedagogia 30,8% e terapia comportamental ABA 29,8%, com menor frequência para fisioterapia, nutrição e musicoterapia, entre outras abordagens.

O Instituto Autismos ressalta que a maioria das pessoas autistas recebe poucas horas de atendimento semanal, o que contrasta com recomendações internacionais de carga elevada para terapias multidisciplinares

“Os resultados do Mapa Autismo Brasil também revelam que 56,5% dos entrevistados (englobando quem usa SUS e a rede privada) informaram que a pessoa autista em questão (o próprio respondente ou a pessoa sob sua responsabilidade) faz até duas horas semanais de terapia, o que destoa do preconizado internacionalmente – que são terapias multidisciplinares e em carga semanal elevada.”

Ao relacionar disponibilidade, custo e oferta, a análise do Instituto aponta restrições que limitam o suporte adequado

“A concentração em poucas horas semanais sugere limitações de acesso, custo e disponibilidade de serviços, indicando que grande parte das pessoas autistas recebe suporte terapêutico aquém do ideal para necessidades mais intensivas”

Os investimentos mensais relatados pelos participantes concentram-se nas faixas de R$ 501 a R$ 1.000 com 24,8%, de R$ 1.001 a R$ 3.000 com 22,2% e de R$ 101 a R$ 500 com 20,9%, enquanto 4,3% informaram gastar mais de R$ 5.000 por mês e 5,7% declararam desembolsos de até R$ 100.

Em termos de frequência de sessões, 25,9% relataram uma hora por semana, 12,4% duas horas e 18,1% nenhuma sessão, com apenas 1,54% alcançando 40 horas ou mais semanalmente.

Perfil sociodemográfico, cuidadores e benefícios

O conjunto de entrevistas desenha um perfil diverso do autista no país. Em termos de cor ou raça, 60,8% se declararam brancos, 32% pardos, 5,2% pretos, 1,1% amarelos e 0,25% indígenas. A proporção por sexo marca 65,3% homens e 34,2% mulheres.

Quanto à idade, 72,1% dos registros referem-se a pessoas com até 17 anos, e 27,9% abarcam um intervalo entre 18 e 76 anos.

Sobre suporte necessário no dia a dia, 53,7% foram classificados no nível 1 de suporte, 33,7% no nível 2 e 12,6% no nível 3, que exige maior auxílio.

Comorbidades também foram frequentes entre os respondentes com destaque para TDAH com 51,5% de ocorrência, transtorno de ansiedade 41,1%, distúrbios do sono 27,9% e transtornos gastrointestinais 23,2%, além de transtorno do desenvolvimento da linguagem em 19,3% e altas habilidades em 19,1%.

No que diz respeito à comunicação, 55,5% falam frases completas e longas, 29,5% apresentam ecolalia e 28,1% falam poucas palavras ou frases, com 7,65% que não falam e não usam comunicação aumentativa e alternativa, e fatias menores que utilizam CAA ou Libras.

Entre os 16.807 responsáveis, 96% eram pais ou mães e destas 92,4% eram mães. No recorte dos cuidadores, 55,2% possuíam ensino superior completo ou pós graduação, e 30,47% declararam não ter renda ou estar desempregados.

Ao comentar a relação entre cuidado e mercado de trabalho, o Instituto Autismos apontou efeitos sobre a trajetória profissional dos cuidadores

“A elevada proporção de cuidadores fora do mercado de trabalho sugere impacto direto das demandas de cuidado na trajetória profissional, ampliando vulnerabilidades econômicas e dependência de políticas de proteção social”

Do total de entrevistados, 76,6% disseram utilizar algum benefício relacionado ao autismo, mas a maior parte dos auxílios refere se a identificação e prioridade de atendimento, como cartão de identificação de pessoa com TEA com 36,7%, atendimento preferencial com 30% e vagas de estacionamento com 20,7%.

Apenas 16,6% relataram acesso ao Benefício de Prestação Continuada, 12,9% usaram passe livre e 7,7% informaram isenção de IPVA.

Em maio de 2025 o IBGE divulgou dados do Censo Demográfico 2022 que mapearam 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil, quantidade que representa 1,2% da população, e o Instituto Autismos destacou as diferenças metodológicas entre os levantamentos

“Diferentemente do Censo, o Mapa Autismo Brasil faz uma análise socioeconômica e de acesso a serviços de autistas e cuidadores de pessoas autistas, contribuindo com uma avaliação do cenário atual e apontando para demandas de melhorias nas políticas públicas”

Na transição para a vida adulta o estudo aponta desafios para ingresso no mercado de trabalho. Entre autistas com 18 a 76 anos, 29,9% informaram estar desempregados ou sem renda, enquanto os que trabalham se distribuem entre servidores públicos com 21,1%, carteira assinada 20%, atividade autônoma 8,1% e outras formas de ocupação.

Sobre educação, 83,7% disseram frequentar instituição de ensino, sendo 52,26% em escolas públicas e 31% em privadas, mas quase 40% afirmaram não receber nenhum tipo de apoio acessível ou adaptado.

Ao avaliar a presença nas salas de aula e o acesso a apoios, o Instituto Autismos destacou fragilidades na implementação das políticas de inclusão

“Os dados mostram que a presença na escola não garante, por si só, a inclusão efetiva. A elevada proporção de estudantes sem apoios básicos sugere fragilidade na implementaçao das políticas de educação inclusiva e desigualdade no acesso aos recursos educacionais previstos em lei”

O relatório fornece um panorama detalhado sobre oferta de cuidados, distribuição regional e impactos socioeconômicos, indicando pontos de atenção para formulação e ampliação de políticas públicas direcionadas ao atendimento integral das pessoas com TEA.

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