Documentos revelam que Meta monitorava vício em redes sociais no Brasil desde 2019
A Justiça dos Estados Unidos utilizou registros internos da Meta e do YouTube para condenar as plataformas pelo impacto viciante de suas tecnologias no mês passado. O material entregue aos tribunais americanos demonstra que o antigo Facebook monitorava o uso compulsivo de seus aplicativos por pessoas do Brasil, dos Estados Unidos e da Índia desde 2019.
Os relatórios apontam que a companhia tinha ciência dos riscos ao definir o uso problemático como uma mistura de falta de controle e sentimento de culpa. Um jovem brasileiro relatou sua experiência de dependência em um estudo de referência da plataforma elaborado em 2018, descrevendo a relação prejudicial com o aplicativo.
“O tempo que eu gasto [na plataforma] não é saudável, é como um vício. Abrir o aplicativo a cada meia hora não é saudável”
As avaliações internas atestavam o efeito negativo das redes sociais no bem-estar humano ao listar consequências como distúrbios do sono e negligência parental, algo ilustrado por um homem durante uma entrevista em 2019.
“Algumas vezes, eu não dou a devida atenção ao meu filho. Eu amo brincar com ele, e o telefone me distrai ocasionalmente”
Os pesquisadores da gigante de tecnologia concluíram que a compulsão não dependia apenas de horas gastas, mas do alto volume de conexões em um curto período. Essa busca por engajamento envolvia um plano traçado em 2016 para tornar o crescimento entre adolescentes a prioridade máxima da companhia.
O foco da expansão mirava escolas com grande proporção de usuários de iPhone, já que os aparelhos com sistema Android eram vistos como um indicativo socioeconômico de baixa renda. A empresa priorizou a reestruturação do círculo de amigos dos jovens para alavancar os acessos e manter a competitividade na internet.
Todo esse acervo documental embasou a análise dos jurados sobre a petição de uma jovem californiana que desenvolveu problemas de saúde mental após ingressar nas plataformas na infância. A defesa da Meta e do Google apresentou laudos psicológicos atribuindo os danos da usuária a abusos familiares, argumentando que o processo ameaçava a liberdade de expressão online.
O YouTube também planeja recorrer da sentença e teve comunicações internas expostas durante o julgamento para explicar sua estratégia de mercado. A diretora de produto da plataforma de vídeos reforçou em 2019 a importância das ferramentas de interação para competir com outros aplicativos.
“O YouTube não seria mais uma rede social se removêssemos todas as ferramentas sociais”
O processo original incluía outras empresas do setor de tecnologia que optaram por caminhos judiciais diferentes antes da deliberação do júri. Os aplicativos Snapchat e TikTok realizaram acordos financeiros confidenciais para evitar a continuidade do litígio nos tribunais americanos.

