Universidades públicas eliminam segunda fase de vestibulares por baixo impacto na aprovação
Processos seletivos de instituições públicas de ensino superior passam por uma reformulação estrutural com a extinção das etapas divididas em múltiplos dias. Universidades federais decidiram unificar suas provas em uma única data após levantamentos internos demonstrarem que a existência de uma segunda fase altera minimamente a lista final de aprovados.
A Universidade Federal de Uberlândia e a Universidade Federal do Paraná estão entre as instituições que adotaram o novo formato. Simulações realizadas pelas equipes pedagógicas revelaram que a manutenção de provas discursivas em dias separados servia basicamente para reordenar a classificação de candidatos já bem posicionados.
A mudança na instituição mineira passa a valer a partir de 2026 com a aplicação de 65 questões objetivas e uma redação, formato embasado por dados internos analisados pelo pró-reitor de graduação Waldenor Moraes. “Se rodássemos o vestibular só com a primeira fase, o resultado mudaria basicamente a ordem de classificação”.
O cenário se repete no Paraná com a avaliação passando a ter cinco horas e meia de duração, 80 questões objetivas e duas de produção textual, o que não deve impactar os resultados segundo o diretor do Núcleo de Concursos da UFPR, Marco Randi. “No máximo 10% das vagas seriam trocadas de mãos, altera pouco o perfil dos aprovados”.
Além da baixa eficácia na seleção, o modelo com múltiplas etapas gerava altos índices de abstenção e provas entregues em branco, exigindo que estudantes de outras regiões arcassem com pesadas despesas de transporte e hospedagem. A concentração em um único dia busca democratizar o acesso e evitar que jovens de baixa renda desistam da disputa por falta de recursos financeiros.
A equipe da universidade mineira identificou que o peso financeiro era um obstáculo direto para o preenchimento das vagas, um problema reconhecido pelo pró-reitor Waldenor Moraes. “Muitas vezes, a gente perdia esse jovem por uma questão socioeconômica”.
A simplificação do exame paranaense reduz custos operacionais com fiscais e corretores e possibilitará uma queda no valor da taxa de inscrição cobrada dos participantes. Para manter a avaliação justa, a UFPR aplicará pesos diferentes para as disciplinas conforme o curso escolhido e manterá provas de habilidades específicas apenas para a graduação em música.
Outras grandes instituições paulistas já iniciaram adaptações semelhantes em seus processos seletivos, como a Universidade de São Paulo e a Universidade Estadual de Campinas, que anunciaram reduções no número de questões para os próximos anos. Essa flexibilização concede mais tempo de resolução aos participantes e reflete as mudanças no perfil dos estudantes que concluíram o ensino médio durante a pandemia.
Educadores notam que os atuais candidatos chegam aos locais de prova com maior dificuldade de concentração e apresentam lacunas de aprendizado em matérias básicas de exatas. A UFU iniciou programas de acolhimento acadêmico para auxiliar os calouros na organização dos estudos, na leitura de textos científicos e na adaptação ao ambiente universitário.
O panorama atual também envolve transformações sociais mais amplas em relação ao valor do ensino tradicional, fenômeno observado pelo diretor Marco Randi ao analisar as novas gerações. “Há um histórico internacional de desestímulo ao ensino superior”.

