Resistência do Irã mantém pressão econômica e provoca recuo dos EUA

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O presidente dos Estados Unidos retrocedeu pela segunda vez em menos de uma semana na ameaça de atingir a indústria de energia do Irã, movimento que evidencia limites da capacidade de Washington de ampliar o confronto diante do impacto econômico causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz e dos ataques a instalações energéticas no Golfo Pérsico.

O recuo ocorreu em um momento em que o preço do barril de petróleo permanece em torno de US$ 110, enquanto as ações em Wall Street registram os menores patamares dos últimos seis meses, acompanhadas por quedas nos mercados de títulos da zona do euro e nos títulos do Tesouro dos EUA.

Pedro Paulo Zaluth Bastos, professor associado de economia da Universidade Estadual de Campinas, avalia que a estratégia do presidente se baseia em advertências com objetivo de sondar reações e, diante dos riscos econômicos, optar pelo recuo.

“ver se cola”

O professor relaciona a decisão ao potencial de uma retaliação que ampliaria severamente o choque sobre o fornecimento mundial de petróleo, com efeitos diretos sobre a popularidade do governo nos Estados Unidos caso os preços subissem bruscamente.

“Nesse caso, teremos a possibilidade de o petróleo bater recorde e passar de US$ 150, eventualmente chegar a US$ 200. Isso é muito e destrói inteiramente a popularidade de Trump nos EUA, particularmente entre os independentes, mas mesmo de parte dos afiliados ao partido Republicano”

Em seguida, ele detalha como a destruição de capacidade produtiva difere de paralisações temporárias, aumentando o tempo e o custo da recuperação do suprimento.

“Provocaria uma queda ainda maior do volume de petróleo que chega ao mercado internacional. Uma coisa é religar [um sistema paralisado], mantida a capacidade produtiva, outra é reparar a capacidade produtiva destruída, cuja restauração levaria muito mais tempo”

Marco Fernandes, economista e membro do Conselho Popular do Brics, pondera que os efeitos sobre a economia global se agravariam caso o conflito se prolongue ou aumente a destruição de infraestrutura na região.

“catastróficos”

O analista alerta para o risco de fechamentos adicionais de rotas marítimas, citando o Estreito Bab al-Mandeb como um ponto que, se bloqueado por aliados do Irã, poderia provocar um colapso amplo do mercado energético mundial.

“Se os yemenitas [aliados do Irã] fecham o estreito Bab al-Mandeb [no Mar Vermelho], aí nós vamos ter, de fato, um colapso generalizado do mercado de energia no mundo”

Fernandes também relaciona o gás da região a setores industriais essenciais, como fertilizantes e a produção de semicondutores, o que ampliaria efeitos sobre alimentos e eletrônicos.

“Isso pode ser gravíssimo. Algo entre 60% a 70% da produção global de chips vem de Taiwan. E a TSMC [Taiwan Semiconductor Manufacturing Company], que é a grande empresa global de produção de chips, não tem estoques de gás hélio por muitos mais dias”

O analista acrescenta que os Estados Unidos já teriam consumido parte relevante de seus estoques do sistema antimísseis THAAD durante o confronto recente de junho de 2025, reduzindo a capacidade americana em uma guerra prolongada.

“Essa guerra também, quanto mais tempo ela continuar, maiores as chances de Israel e dos outros ativos estadunidenses na região ficarem sem nenhuma defesa contra os mísseis iranianos. Então de fato é um cenário, eu diria, que se configura ou se… Se vislumbra uma catástrofe tanto para Estados Unidos quanto para Israel na região”

Por fim, Marco Fernandes destaca que, mesmo sendo um grande produtor, o mercado norte-americano funciona pelo preço global, o que tende a repassar aumentos de combustível ao consumidor interno e pressionar a inflação.

“Por, justamente, se tratar de um sistema capitalista selvagem, as empresas produtoras de petróleo não vão vender mais barato internamente, elas vão cobrar o preço mundial. Os EUA tendem a sofrer mais aumento do preço dos combustíveis. Isso é péssimo para o Trump eleitoralmente porque isso vai aumentar a inflação no país”

A pressão econômica tem implicações políticas imediatas para a administração americana, que enfrenta eleições legislativas em novembro e o risco de perder a estreita maioria no Congresso, num cenário em que a inflação já corroeu parte da popularidade do presidente, segundo análise econômica citada em entrevistas.

Pedro Paulo retorna à ideia de que o Irã obteve um ponto de alavancagem na economia global e usará essa posição para exigir condições favoráveis antes de recuar.

“O Irã sabe que, agora que encontrou um ponto de estrangulamento fundamental para a economia mundial, só vai querer sair da guerra se tiver condições favoráveis. E é relativamente barato fechar o Estreito de Ormuz e cobrar concessões maiores, como já estão fazendo”

As avaliações dos especialistas ressaltam que o custo de uma escalada militar direta sobre a infraestrutura energética iraniana poderia ser muito maior do que aparenta, direta e indiretamente afetando oferta global de energia, cadeias de insumos industriais e cenários políticos internos nos Estados Unidos e aliados.

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