Ritmo do aquecimento global dobra na última década e bate recorde

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Estudo do Instituto Potsdam remove variações naturais para confirmar aceleração estatística da temperatura e alerta para ultrapassagem do limite de 1,5°C até 2030

Um novo levantamento científico confirmou com alto grau de precisão estatística que o aquecimento do planeta entrou em uma fase de aceleração inédita. A taxa de aumento da temperatura global praticamente dobrou na última década, passando de uma elevação constante de 0,2°C por década, observada durante mais de 40 anos a partir de 1970, para uma média de 0,35°C a partir de 2014. O índice atual representa o maior registro de aquecimento em qualquer década desde 1880, início da série histórica analisada.

Os dados foram publicados na revista Geophysical Research Letters por pesquisadores do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), da Alemanha. A análise indica que, caso esse ritmo persista, o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais estabelecido pelo Acordo de Paris será superado até 2030. Essa violação da meta climática tende a intensificar eventos extremos e provocar perdas catastróficas em diversos ecossistemas.

A pesquisa se diferencia de estudos anteriores ao eliminar incertezas estatísticas que antes impediam a confirmação dessa tendência. Para obter um cenário mais límpido, os cientistas descontaram a influência de fatores de variabilidade de curto prazo, como o fenômeno El Niño, erupções vulcânicas e oscilações solares. Essa metodologia permitiu isolar o aquecimento provocado pela ação humana das flutuações naturais que poderiam mascarar a real velocidade das mudanças climáticas.

Stefan Rahmstorf, climatologista e um dos autores do trabalho, destacou a discrepância entre os dados observados e as projeções anteriores. “Fiquei surpreso com o aumento repentino da taxa de aquecimento nos últimos dez anos. Era esperado um aumento mais gradual e lento, como previsto pelos modelos climáticos”.

A investigação baseou-se em cinco conjuntos de dados de prestígio internacional, incluindo informações da Nasa, da Noaa e do observatório europeu Copernicus. A aceleração tornou-se evidente em todos os bancos de dados entre 2013 e 2014, com o aumento da taxa variando de 70% a 110% na última década. Os ajustes realizados pelos pesquisadores mostram que, mesmo retirando os efeitos do El Niño e do máximo solar, a tendência de alta se mantém firme desde 2015, não sendo fruto apenas de anos atípicos recentes como 2023 e 2024.

Redução de poluição pode ter efeito colateral

Embora o estudo não tenha como foco determinar as causas exatas dessa aceleração, a principal hipótese considerada pela comunidade científica envolve a diminuição de aerossóis na atmosfera. Essas partículas, provenientes da poluição industrial e do transporte marítimo, funcionam como uma barreira que reflete a luz solar de volta ao espaço, gerando um efeito de resfriamento. A implementação de regras mais rígidas para a qualidade do ar nos últimos anos reduziu a presença desses poluentes, o que paradoxalmente pode ter contribuído para a entrada de mais calor no sistema terrestre.

O combate a esse cenário exige a redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, principalmente através do abandono de combustíveis fósseis e do fim do desmatamento. Especialistas apontam o corte nas emissões de metano como uma estratégia vital de curto prazo, já que esse gás é 80% mais potente que o dióxido de carbono (CO2) no aquecimento da atmosfera, embora permaneça nela por apenas cerca de 20 anos.

Rahmstorf avalia que focar no metano pode oferecer resultados rápidos para tentar salvar a meta de 1,5°C, mas alerta que o CO2 continua sendo o desafio dominante devido à sua longa permanência. “Então, [cortando o metano] você pode obter um sucesso rápido, mas não um efeito tão duradouro quanto com a redução do CO2. Definitivamente, devemos fazer ambos o mais rápido possível”.

O cenário político global apresenta obstáculos para essa transição energética necessária. Nos Estados Unidos, a influência do lobby dos combustíveis fósseis sobre o governo tem gerado negação da ciência climática. Na Europa, inclusive na Alemanha, observa-se uma reação política contrária que tenta frear a mudança para energias renováveis, apesar da determinação de outras partes do mundo em reduzir emissões.

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