MS incorpora 108 mulheres soldado pela primeira vez na história das Forças Armadas
Mato Grosso do Sul incorporou 108 mulheres como soldados rasos nas Forças Armadas nesta segunda-feira (2), em cerimônias realizadas simultaneamente em Campo Grande e Ladário. É a primeira vez na história do país que mulheres ingressam no serviço militar inicial do Exército Brasileiro, da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira.
Em Campo Grande, 99 recrutas foram incorporadas ao Exército durante solenidade no Comando Militar do Oeste, na avenida Duque de Caxias. A cerimônia incluiu marcha, desfile, revista e apresentação da tropa, execução do hino nacional e contou com a presença de familiares, além do deputado federal Beto Pereira (PSDB) e da deputada estadual Gleice Jane (PT). Em Ladário, outras 9 militares foram incorporadas ao 6° Distrito Naval da Marinha.
Das 99 novas soldados na capital, 61 vão atuar no próprio Comando Militar do Oeste, 26 no Colégio Militar de Campo Grande e 12 no Hospital Militar de Campo Grande. Já as recrutas de Ladário vão trabalhar nas áreas de administração, enfermaria, alimentação, intendência, manutenção e comunicação do 6° Distrito Naval.

Uma das novas soldados em Campo Grande contou o que a motivou a se alistar. “Resolvi servir por causa da escola e por causa do incentivo dos meus pais. Sempre quis servir e daí abriu oportunidade, aí eu me alistei. É muito gratificante. A gente sente muito honrada de poder estar aqui. Eu quero ser um major, um cabo, o mais alto possível. É algo incrível, né? A gente vê as mulheres no topo. A gente vê as mulheres se formando inclusive hoje”, disse.
Na plateia, Leiliane Cardoso Nogueira dos Anjos, manicure e mãe de uma das incorporadas, Vitória, não continha a emoção. “Meu coração está muito muito acelerado, muito feliz, muito contente e admirada da coragem dela, é muito lindo. É muito lindo estar aqui, muito lindo poder sentir isso. Muito honrada”, afirmou.
No total, 1.010 mulheres de 38 organizações militares espalhadas por 14 cidades brasileiras foram incorporadas como soldados nesta segunda-feira, segundo o General de Brigada Zanon. Só em Mato Grosso do Sul, 586 mulheres se alistaram ao longo de 2025; 421 em Campo Grande pelo Exército, 132 em Corumbá e 33 em Ladário pela Marinha. Nem todas que se alistaram foram selecionadas; o processo passou por várias etapas eliminatórias ao longo de oito meses antes de chegar à incorporação desta segunda.
A tenente Amanda, instrutora das novas soldados, explicou o que vem pela frente para as recrutas. “Elas vão ter um período pequeno de internato, em que elas vão vivenciar um pouco mais a rotina militar e após isso elas seguem tendo instruções aqui conosco e após isso elas vão ser distribuídas nas diversas organizações militares”, disse.
Oito meses de seleção para chegar ao quartel
O caminho até a incorporação começou no alistamento, aberto entre 1° de janeiro e 30 de junho de 2025. Em julho, as candidatas passaram por exame de saúde, inspeção dentária e entrevista. O resultado da designação saiu em 2 de janeiro de 2026, seguido de seleção complementar na primeira semana de fevereiro. O resultado final foi divulgado em 6 de fevereiro e a incorporação ocorreu nesta segunda-feira, 2 de março.
Para participar do processo, as candidatas precisavam ter nascido em 2007 e completar 18 anos em 2025, além de estar em bom estado de saúde comprovado por exames médico e odontológico.
A remuneração das recrutas é de um salário mínimo, R$ 1.621,00, mais vale-transporte. Não há estabilidade no cargo; o contrato é renovado anualmente e o tempo máximo de serviço ativo é de oito anos. Após o desligamento, as militares passam para a reserva não remunerada das Forças Armadas. Ainda assim, a carreira pode avançar; mediante realização de cursos de formação, é possível chegar até a patente de 3° sargento.

Antes desta mudança, mulheres só podiam entrar nas Forças Armadas como militares de carreira, via concurso público, ou como temporárias, por meio de seleções conduzidas pelas Regiões Militares. No novo modelo, os homens continuam obrigados ao serviço militar inicial, enquanto as mulheres participam de forma voluntária. Uma vez incorporadas, as militares ficam sujeitas aos direitos, deveres e penalidades previstos na Lei n° 4.375, de 17 de agosto de 1964, e no Decreto n° 57.654, de 20 de janeiro de 1966.
A base legal para a mudança é o Decreto n° 12.154, publicado pelo Governo Federal em 28 de agosto de 2024, que regulamentou o serviço militar inicial feminino voluntário no Brasil. A meta do Exército é que, até 2030, mulheres ocupem 20% das vagas do serviço militar inicial.
