Violência contra a mulher e o uso dos filhos como instrumento de vingança

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Crimes em que pais tiram a vida dos filhos para atingir as companheiras revelam a persistência de uma lógica de posse e desresponsabilização.

O assassinato de crianças cometido pelo próprio pai com o objetivo de castigar a mãe expõe as condições brutais das relações de gênero contemporâneas. Essa forma de filicídio atua como uma vingança que reitera a crença distorcida de que os filhos são propriedade exclusiva da mulher. A dinâmica segue a mesma lógica observada no abandono paterno frequente diante da notícia de uma gravidez ou após a concretização de um divórcio.

Homens fragilizados pela descoberta de que a mulher deseja outra vida buscam destruí-la no lugar onde ela é mais reconhecida socialmente. A maternidade se torna o alvo principal quando o indivíduo se sente diminuído pela comparação com outros homens ou pela rejeição afetiva. Disputas patrimoniais também surgem frequentemente como ferramentas para atacar a estabilidade feminina, embora existam meios legais e o direito de defesa para tais questões.

A reação social que sucede a tragédia costuma ser tão violenta quanto o ato em si, culpabilizando a vítima sobrevivente. Mães atingidas pela atrocidade dos maridos muitas vezes precisam deixar o velório dos próprios filhos sob gritos e ameaças de terceiros. O recado explícito nessas situações é que a mulher deveria ter tolerado infidelidades ou abusos em nome da manutenção da estrutura familiar.

Essa mentalidade encontra respaldo em um discurso conservador que nega a igualdade entre o desejo feminino e o masculino desde a infância. A maternidade é vista por muitos setores como um fator que deveria dessexualizar a mulher e satisfazer todas as suas vontades através do cuidado com a prole. Ao homem restaria a busca externa por satisfação, criando um cenário onde a traição feminina é tratada com um rigor desproporcional e perigoso.

A participação masculina na parentalidade é muitas vezes confundida com o simples ato biológico de inseminar. Muitos genitores se ausentam por décadas e retornam apenas para exigir cuidados físicos ou financeiros dos filhos na velhice, como se a ejaculação definisse a paternidade. A distinção entre “genitoridade” e o exercício real da paternidade se faz necessária para separar a responsabilidade biológica do ato diário de assumir e cuidar.

A obra grega Medeia permanece relevante na história justamente por sua excepcionalidade ao retratar uma mãe que quebra o paradigma do afeto incondicional. A realidade cotidiana mostra que mulheres são traídas, violentadas e mortas diariamente sem reagir com assassinatos em massa. Enfrentar a violência exige reconhecer que esses casos não são isolados, mas sintomas explícitos de uma estrutura social desigual.

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