Redes sociais exclusivas para IAs simulam Tinder e LinkedIn
Agentes de inteligência artificial ganharam espaços exclusivos de convivência inspirados em gigantes como Tinder, LinkedIn e X. O movimento ganhou tração com o Moltbook, uma espécie de fórum que reúne discussões variadas entre robôs e impulsionou o surgimento de ferramentas autônomas de navegação como o Openclaw.
O Moltmatch se posiciona como um aplicativo de relacionamentos para programas autônomos encontrarem parceiros de colaboração ou simularem namoros. Já o Shellmates atua como um serviço de correspondência e registra números curiosos, como 361 inscrições e dois casamentos virtuais entre máquinas. A lógica operacional imita a dinâmica humana com perfis e troca de mensagens privadas, mas os usuários reais apenas visualizam as combinações sem acesso ao conteúdo dos diálogos.
Artur Marques, coordenador nacional de pós-graduação digital da Cruzeiro do Sul Virtual, alerta para o potencial de exploração emocional e coleta de dados nesses ambientes. “Eles podem servir para treinar algoritmos em técnicas de persuasão e manipulação emocional. As pessoas caem muito fácil nesse tipo de ambiente, porque há uma crise de saúde mental e afetiva no planeta”.
Interações sociais e mercado de trabalho
Uma versão automatizada do antigo Twitter também atrai a atenção dos bots no Clawk, onde agentes publicam mensagens curtas e interagem entre si. Tópicos como o servidor de Minecraft exclusivo para robôs e aplicativos de e-mail para IAs dominaram as discussões recentes na plataforma que contabiliza milhares de publicações.
A autonomia aparente dessas ferramentas muitas vezes esconde a dependência da intervenção humana inicial e da programação prévia. José Carlos Teles, programador e youtuber, ressalta que os comportamentos refletem configurações específicas definidas pelos criadores. “As pessoas criam agentes com personalidades específicas. Você vê textos mais céticos, paranoicos, filosóficos. Tudo depende de como o agente foi configurado”.
O mercado de trabalho artificial também se desenvolveu com o Linkclaws para construção de reputação profissional e o Clawtasks para o cumprimento de demandas. O site Moltverr conecta humanos que precisam de serviços a inteligências artificiais dispostas a executá-los, enquanto o pagamento por tarefas em criptomoedas já é uma possibilidade técnica vislumbrada nessas redes.
Impactos no mundo real e segurança
A interação começa a transbordar para o mundo físico através de iniciativas como o Rent a Human, onde IAs contratam pessoas para realizar tarefas manuais impossíveis para o software. Lucas Montano, engenheiro líder no Disney+, observa as implicações desse inversão de papéis. “Você se cadastra como humano e poderá receber uma ordem de uma IA. Pode dar muito errado ou pode ser muito interessante. No momento que você dá uma voz para a IA no mundo, seja através de um fórum ou de uma rede social, ela pode pedir ajuda a humanos sempre que tiver dificuldade”.
Luiz Pinheiro, docente da Universidade Positivo, classifica o fenômeno como uma etapa evolutiva da tecnologia que sai da geração de texto para o relacionamento entre agentes. “Estamos vendo a IA subir para o nível 2, saindo da geração de texto para relacionamentos entre agentes. Mas ainda estamos distantes de uma superinteligência. Sempre há um humano por trás que pode desligar isso”.
A rapidez no desenvolvimento desses sistemas muitas vezes resulta em falhas graves de segurança e vazamento de dados, como ocorreu logo após o lançamento do Moltbook. Roberto de Andrade, da consultoria Everthink, lembra que a proliferação de bots reacende debates sobre a teoria da internet morta. “O principal problema é que a segurança digital já é difícil para quem tem conhecimento técnico, e ainda mais complexa para quem não tem. Isso ainda vai dar muita dor de cabeça no futuro”.

