Blocos de saúde mental reforçam inclusão e quebram preconceitos no Rio
Blocos vinculados à rede de atenção psicossocial do município prometem movimentar bairros espalhados pela cidade e trazer ao Carnaval debates sobre inclusão e redução de estigmas. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, as agremiações mostram que a maior festa popular do país também é espaço de conscientização e combate ao preconceito.
Hugo Fernandes, superintendente de Saúde Mental da secretaria, contextualiza a importância social dessas iniciativas. “Os blocos de saúde mental são espaços de expressão, pertencimento e cidadania, fundamentais para uma política de cuidado em liberdade”.
Além dos desfiles, os coletivos mantêm atividades ao longo do ano que atuam como suporte à reintegração social, oferecendo oficinas de música, fantasia, artesanato e percussão e ampliando o diálogo com a comunidade sobre respeito às diferenças e cuidado coletivo.
Programação e trajetos
O Zona Mental, nascido em 2015 e organizado por usuários, familiares e profissionais da rede da Zona Oeste, desfila em 6 de fevereiro com concentração às 16h na Praça Guilherme da Silveira, no Ponto Chic, seguindo pelas ruas de Bangu. A presidência do bloco é compartilhada pela musicoterapeuta Débora Rezende e pela artista Rogéria Barbosa do Caps Neusa Santos.
Débora Rezende explica a proposta de visibilidade e quebra de preconceitos promovida pelo coletivo. “A gente abre o carnaval da saúde mental. A gente quer ver todos os nossos usuários, familiares, junto com o pessoal dali. Porque a gente passa e, de repente, o bloco cresce. A ideia é essa: todo mundo junto e misturado”.
No desfile de 2026 o Zona Mental irá homenagear nordestinos que vivem na Zona Oeste e levará ao público um samba de Marco Antonio Amaral, usuário do Caps Neusa Santos, que aborda a trajetória do multi-instrumentista Hermeto Pascoal. Pascoal morreu no ano passado, aos 89 anos.
O bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou! vai celebrar o vigésimo quinto aniversário da Lei 10.216 de 2001 e os 21 anos do próprio coletivo em 8 de fevereiro, com concentração às 15h na Avenida Pasteur, na Urca, na altura da Unirio. A agremiação presta também homenagem ao psiquiatra italiano Franco Basaglia.
Alexandre Ribeiro, psicanalista e fundador do bloco, retoma a influência de Basaglia sobre a reforma brasileira assim como a memória das violações que motivaram mudanças no país. “talvez tenha sido a maior inspiração para a reforma psiquiátrica no país”.
O texto histórico recorda que Basaglia conheceu as condições do Hospital-Colônia de Barbacena, onde mais de 60 mil pessoas morreram em decorrência de maus-tratos, e chamou o manicômio mineiro de “campo de concentração nazista” e de “carcereiros” os profissionais que aceitavam aquela realidade. A mobilização inspirada por esse movimento contribuiu para o Manifesto de Bauru de 1987 e para a instituição do Dia Nacional da Luta Antimanicomial em 18 de maio, culminando na aprovação da Lei 10.216 em 2001.
O Tá Pirando, Pirado, Pirou! será acompanhado pela bateria da Portela e terá como convidados os blocos Céu da Terra e Vem Cá Minha Flor.
Memória e convivência nos bairros
O Império Colonial, fundado em 2009 a partir das ações do Museu Bispo do Rosário ligado ao Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira, apresentará em 10 de fevereiro um enredo em homenagem ao artista plástico Arthur Bispo do Rosário. O artista, diagnosticado com esquizofrenia, foi marinheiro, boxeador e permaneceu internado por quase 50 anos na Colônia Juliano Moreira.
O enredo foi escrito por Alex de Repix, usuário do Caps Jovelina Pérola Negra, e o desfile terá concentração às 14h30 na Praça Nossa Senhora de Fátima, em Jacarepaguá. O Império Colonial é um grupo reduzido, com cerca de 20 integrantes entre bateria, profissionais de saúde mental e usuários, e espera dobrar a presença do público em relação ao baile realizado no ano passado, que reuniu 200 pessoas.
O Loucura Suburbana escolheu entre 25 concorrentes o samba Para o povo poder cantar para o desfile de 12 de fevereiro, cuja expectativa é voltar a atrair mais de 3 mil foliões. O bloco saiu pela primeira vez em 2001 nas ruas do Engenho de Dentro e completa 26 anos em 2026.
Ariadne Mendes, coordenadora-geral da agremiação, descreve o processo de escolha do enredo e a síntese das contribuições da comunidade. “Trouxeram tantos temas que foi difícil escolher somente um. A gente preferiu separar em grupos temáticos as ideias que as pessoas trouxeram”.
O enredo aprovado sintetiza três frentes temáticas, segundo a organização do bloco. “Baluartes, Território e Loucura”.
Ariadne elabora a dimensão territorial e comunitária do bloco e liga o projeto à retomada das atividades locais. “É continuar, se reconstruir, botar os pés na terra e a mão na massa e ir em frente. São as nossas raízes fincadas aqui. A gente revitalizou o carnaval de rua daqui”.
Sobre o significado social do Loucura Suburbana, a coordenadora destaca o espaço de encontro que o bloco representa. “Acaba sendo um lugar celebrado. É uma alegria, um lugar de encontro. O Loucura Suburbana é sempre reverenciado”.
Para facilitar a participação, o Loucura Suburbana mantém um barracão que disponibiliza fantasias para reserva e uso no dia do desfile, e oferece maquiagem carnavalesca gratuita na data.
De acordo com informações da prefeitura, as iniciativas dos blocos reúnem usuários da rede de atenção psicossocial, familiares, profissionais de saúde e moradores, e reafirmam o direito ao acesso à cultura e à alegria por parte de pessoas em sofrimento psíquico.

